Esportes
Entenda por que Everton Felipe encerrou a carreira aos 26 anos: "Tem joelho de um homem de 70"
Ex-meia de Sport e São Paulo anunciou fim da carreira precocemente após uma série de tratamentos malsucedidos no joelho; Everton acusa o Sport de abandono e pede indenização
| GLOBOESPORTE.COM / DANIEL LEAL E DIOGO MARQUES
"Você deixa muitos sonhos para trás. Sei do meu potencial, sei o que poderia fazer na carreira, tenho 26 anos, não é 35. Agradeço muito ao futebol porque realizei muitos sonhos, mas deixei muitos pelo caminho".
A frase de Everton Felipe, um dia após anunciar a aposentadoria como atleta, pouco remete ao jogador alto astral, com brilho nos olhos, que despontou há pouco mais de uma década como uma joia das divisões de base do Sport.
Do início com futuro promissor na Ilha do Retiro à sequência de lesões e tratamentos malsucedidos que o fizeram encerrar a carreira precocemente, uma interrogação tomou conta do contexto que envolveu a decisão do ex-meia: por que Everton não conseguiu se recuperar?
A resposta exige uma explicação complexa. Embora jovem, Everton Felipe hoje tem dificuldades até mesmo para caminhar, conforme pôde atestar a reportagem do ge, para quem o ex-jogador concedeu uma entrevista exclusiva.
- Sinto muitas dores, não consigo subir escada, não consigo andar direito. É difícil falar. Não passava na minha cabeça me aposentar com 26 anos. Nunca na minha vida. E principalmente da maneira que aconteceu com o Sport - lamentou.
Everton Felipe sofreu a primeira grave lesão da carreira em 2017: ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo durante a partida contra o Avaí. Cirurgia feita, o atleta se recuperou e voltou a jogar pelo Leão. No ano seguinte, foi negociado por um valor milionário ao São Paulo - onde não obteve sucesso.
Foi emprestado para o Athletico, Cruzeiro e Atlético-GO, com passagens pouco produtivas, até o retorno ao Sport, em 2021.
- Nesse ano, quando voltei, tive uma lesão no Sport, de menisco. Fui curado, tratado. Em 2022, tive outra lesão de menisco. Fiz a cirurgia. Só que eu não consegui mais voltar - resumiu Everton.
"Estava sempre sentindo dores no joelho. Jogava com infiltração e tudo. E chegou um momento que joguei contra o Criciúma (Série A 2022) e saí porque eu não estava aguentando mais. Foram os últimos 45 minutos pelo Sport. Não conseguia mais correr, no impacto doía muito meu joelho", acrescentou.
Daquele dia 2 de agosto de 2022 em diante, a vida de Everton Felipe degringolou.
- Eu disse ao departamento médico do Sport e passaram um tratamento conservador. Eu fiz o tratamento conservador de um mês na academia e tudo. Ia treinar, não conseguia - relatou.
Everton Felipe acusa o ex-clube de abando. "Os caras me largaram machucado", denuncia.
"Fiz um grupo com todos os médicos do Sport dizendo: 'Não estou conseguindo voltar a correr, está doendo muito o meu joelho, me ajudem!'. Falando assim em desespero: 'Me ajudem!', tem print também disso e nenhum dos médicos me respondeu na época. Nenhum dos médicos me respondeu", contou.
Everton Felipe não teve o contrato estendido - procedimento padrão e obrigatório pelas leis trabalhistas -, embora ainda estivesse lesionado, segundo atesta um exame realizado em dezembro daquele mesmo ano por um hospital especializado, em São Paulo.
- Declaro que durante artroscopia no joelho esquerdo foi constatado osteoartrose de joelho com diversos corpos livres articulares, lesões condrais e condilo femoral medial e lateral, lesões meniscais medial e lateral, enxerto de LCA íntegro, porém com fibrose anterior ao enxerto que limitava a extensão da articulação - escreveu, em relatório, o médico ortopedista Caio César Fortuna.
O ge procurou o Sport para ouvir o clube sobre as acusações de Everton Felipe, mas a direção rubro-negra afirmou, através do departamento de comunicação, que não se pronunciaria sobre o caso.
A nossa reportagem também ouviu diretamente alguns dos médicos envolvidos no tratamento de Everton Felipe. Nenhum deles quis falar sobre o caso, exceto um deles que optou por comentar especificamente os pedidos de ajuda do ex-meia via grupo de WhatsApp.
De acordo com André Gomes, atual diretor-médico do Sport e presente no departamento médico à época da lesão de Everton Felipe, não houve resposta no grupo digital porque o departamento médico rubro-negro não considera aquele o meio de comunicação adequada para a situação.
Everton Felipe acionou o Sport na Justiça do Trabalho, em agosto do ano passado, em uma ação com causa avaliada em cerca de R$ 18 milhões.
O ex-meia alega falta de suporte do clube sobre uma lesão sofrida. No processo, pede reconhecimento de acidente de trabalho, indenizações - por dano material e moral - e uma pensão chamada de "vitalícia", mas que remete ao pagamento de salários (numa média do que recebia) até os 35 anos do ex-atleta.
Desde a saída do Sport, Everton Felipe já passou por sete cirurgias, todas realizadas no Recife pelo médico ortopedista Luiz Marcos Braga, que acompanha o ex-jogador desde então.
- Segundo o laudo, ele tinha uma lesão "tipo ciclope", que é uma lesão parcial do ligamento cruzado anterior. Ele já tinha indícios de uma artrose no joelho avançada, com derrame articulares, popularmente conhecido como "água no joelho" - disse o médico
- Tinha fragmentos de cartilagem solto na articulação, lesão meniscal. Então, ele tinha um joelho realmente caminhando para uma artrose grave. As consequências de tudo que ele já passou e da vida de atleta que ele teve durante todo esse período - acrescentou Braga.
O médico afirmou ainda que a lesão de Everton Felipe é praticamente irreversível para que ele volte a jogar futebol. Braga fez uma analogia que compara o joelho do ex-meia ao de um homem de 70 anos.
"É um caso muito grave, é uma artrose muito grave. Para ter uma ideia, a artrose normalmente inicia numa pessoa a partir de 40 anos. Everton tem um joelho de um homem de 70 anos. Tenho paciente com 80 anos com o joelho melhor", afirmou.
- E esse é o grande problema. A lesão dele não é ligamentar, não é uma lesão meniscal. A lesão dele é uma destruição completa da cartilagem articular. A gente classifica as artroses, elas vão do grau um até o cinco. A dele é quatro. É uma artrose gravíssima do joelho - complementou Luiz Braga.
Veja outros trechos da entrevista com o médico Luiz Marcos Braga
Como encontrou o joelho de Everton Felipe em dezembro de 2022?
Luiz Marcos Braga: - Quando a gente começou a tratar Everton, já sabia que seria um grande desafio. O grande desafio da cirurgia de joelho hoje são as lesões de cartilagem. Para o resto, a gente hoje diz que consegue tratar tudo na plenitude. Até as lesões esportivas mais graves que a gente tinha no passado, lesões pluriligamentares do joelho, a gente consegue reabilitar plenamente os atletas. Mas quando a gente fala de cartilagem, a cartilagem é um tecido que uma vez destruído, não se regenera mais. Ele destruiu, acabou-se. E Everton quando me procurou ele já tinha um joelho artrósico. A artrose é a destruição da cartilagem articular, é o verniz do osso. Então era um joelho que já tinha exposição óssea; osso com osso, e as lesões consequentes dessa artrose. São as lesões meniscais, as lesões com fragmentos de cartilagem soltos.
Você acreditava na recuperação dele?
- A gente sabia que seria um grande desafio, mas a gente sempre teve toda a esperança de que a gente pudesse reabilitá-lo para que ele pudesse voltar a jogar. No início para mim era uma satisfação tratá-lo, sou torcedor do Sport, e Everton foi um grande ídolo. Depois iniciou até uma relação pessoal por todo esse tempo que a gente está junto enfrentando tudo isso. Então a gente tinha essa vontade, esse desejo de reabilitar um cara de 24 anos (na época) que não conseguia praticar uma mínima atividade esportiva. Meu desejo, infelizmente, foi maior do que o resultado.
Quais tratamentos foram realizados?
- Nós fizemos em Everton tudo que nós poderíamos fazer em tratamento, tudo que existe de mais moderno no mundo. Fizemos uma nova reconstrução ligamentar, uma antroscopia para tentar tratar esses processos inflamatórios. Lançamos mão do que tem de mais moderno hoje no tratamento da dor, com os bloqueios anestésicos dos nervos geniculares. Fizemos tratamentos ortobiológicos, conhecido popularmente como tratamento com célula-tronco. Ele teve acesso ao que há de mais moderno e mais avançado na medicina. Mas, infelizmente, até hoje a gente não teve uma resposta ao ponto de devolver pra Everton a qualidade de vida de uma pessoa normal. E ainda muito longe do que necessita um atleta de alta performance.
Um paciente como Everton tem perspectiva de voltar a ser atleta?
- A única coisa que cura uma artrose definitiva, num nível de artrose que ele tem, seria uma prótese de joelho. Tirar a superfície articular destruída e colocar uma de titânio. É um procedimento feito para pessoas acima de 60 anos, porque a prótese não dura para sempre, ela tem uma durabilidade média que varia, segundo a literatura, de dez a 15 anos. Se a prótese já é uma cirurgia de grande porte, as trocas das próteses, elas são ainda maiores. E obviamente um paciente com uma prótese de joelho não teria a mínima condição de exercer uma atividade de alto impacto e de alta performance como exige futebol como atleta profissional.
E o que vem sendo feito agora?
- O que a gente tentou durante todo esse tempo e vem tentando é tentar controlar essa dor, controlar a artrose para ele ganhe massa muscular. Ele tem uma atrofia muscular no quadríceps, que é o principal músculo. E não consegue recuperar esse estrofismo muscular. Tem muita dor, tem inchaço. Essa dor impede que a gente faça uma reabilitação funcional mais intensa. Da mesma forma, ele não ganha massa muscular e ausência de massa muscular também é um dos fatores que acelera a destruição da cartilagem articulada.
Diria que é impossível voltar?
- Na medicina as palavras "nunca" e "sempre" nós não usamos. Até porque eu acho que tem muita coisa além da medicina, eu creio muito em Deus. E eu acho que tudo nesse mundo é possível. Eu não desisti de Everton. Estamos tentando programar para ele ir ao maior centro de medicina regenerativa do Brasil. Nós temos uma amizade com o doutor Fábio Lana, a maior referência do Brasil nesse assunto, para tentar alguns tratamentos alternativos secundários para tentar melhorar essa qualidade de vida diária dele, e a Deus pertence a possibilidade de um dia voltando a jogar.
E de forma pragmática, há chances?
- Se a gente for pensar de uma forma muito racional, é muito difícil, quase impossível que ele volte a jogar em alta performance num nível de exigência que se tem de atleta profissional. Desistir, a gente não vai desistir, mas a gente tem que tentar separar um pouco o nosso desejo de ver a pessoa boa, do mundo real. No nosso desejo, a gente vai continuar lutando para vê-lo da melhor maneira possível. Para mim é uma sensação muito, muito triste de a gente não ter conseguido devolvê-lo ao que a gente queria. Essa sensação de impotência e você ter dentro da medicina ainda as limitações de coisas que você não consegue resolver e que fogem da nossa vontade e da nossa capacidade como médico. Mas tudo na vida tem um propósito e eu acho que Deus sabe o está fazendo. Vamos continuar lutando. Eu não vou abandoná-lo. Enquanto existir esperança, vamos lutar.
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