Alfonsina Stormi: 'Não quero te ver, pois temo destruir a lembrança da última vez que te vi'

A frase captura uma contradição que muita gente já viveu.

| CORREIO DO ESTADO / JOãO V. VALENçA


Alfonsina Stormi: "Não quero te ver, pois temo destruir a lembrança da última vez que te vi"
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A poeta argentina Alfonsina Stormi transformou em literatura o medo de que um reencontro destrua a imagem perfeita que guardamos de alguém no coração. Em sua reflexão sobre o amor e a memória, a poeta escreveu uma frase que continua tocando gerações: 'Demoro verte. Não quero te ver. Porque temo destruir a lembrança da última vez que te vi'.

A frase está em sua obra Poemas de amor, publicada em 1926, e ganhou novo destaque nesta semana, quando a Real Academia Española a relembrou no aniversário da morte de Storni. Em 25 de outubro de 1938 — há 88 anos.

A frase captura uma contradição que muita gente já viveu: o desejo intenso de reencontrar alguém importante e, simultaneamente, o pavor de que esse encontro transforme para sempre a imagem que carregamos dele na memória.

O que a poeta tentava dizer sobre lembrança e amor

Storni não falava apenas de nostalgia ao escrever essas linhas. Ela apontava algo mais profundo: há momentos em que a memória de uma pessoa adquire tanta importância que qualquer encontro novo parece uma ameaça ao que foi preservado durante anos.

O tempo muda as pessoas e as circunstâncias, e aquilo que um dia foi especial pode perder significado quando se tenta recuperá-lo na realidade.

A expressão 'Demoro verte' — que significa algo como 'tardo em te ver' ou 'adio o momento de te ver' — traz um matiz essencial que distingue essa reflexão de uma simples rejeição. Não se trata de uma renúncia definitiva ao reencontro, mas de um adiamento cheio de conflito interno.

A distância entre o que a pessoa deseja fazer e o que finalmente consegue fazer atravessa boa parte da literatura amorosa, e muitas pessoas reconhecem essa tensão em suas próprias vidas.

A memória como refúgio contra a realidade presente

Para Storni, a memória funciona como uma espécie de abrigo. A última imagem de alguém pode guardar uma beleza que a realidade presente talvez nunca consiga reproduzir.

O medo que ela expõe não vem necessariamente da outra pessoa — é o pavor de descobrir que aquilo que permanece vivo e intacto na memória já não existe da mesma forma no mundo real.

A força das palavras da poeta argentina reside exatamente nisso: ela não apenas evita um encontro, mas protege uma imagem do passado que fica associada a sentimentos específicos e momentos únicos que não se repetem. É uma reflexão sobre como o tempo modifica tanto as relações quanto a maneira como lembramos delas.

Quem foi Alfonsina Storni e sua trajetória literária

Storni nasceu em 29 de maio de 1892 na Suíça, mas cresceu na Argentina, onde se tornou uma figura fundamental da poesia do século XX. Sua vida foi marcada por dificuldades econômicas e pela busca constante de independência pessoal. Antes de consolidar seu nome como escritora, trabalhou em diferentes ocupações e também foi professora.

Seu primeiro livro de poesias, La inquietud del rosal, saiu em 1916. Depois, publicou El dulce daño, em 1918, Irremediablemente, em 1919, e Languidez, em 1920. Gradualmente, construiu uma voz literária própria e reconhecível, que a diferenciava de seus contemporâneos.

A dedicação aos temas do amor, da vulnerabilidade e da reflexão pessoal marcou toda a sua obra e continua relevante até hoje.

Como a memória preserva imagens que a realidade não consegue manter

Quando guardamos a lembrança de alguém no coração, a imagem fica congelada em um momento específico, associada aos sentimentos, às circunstâncias e às sensações que marcaram aquele instante. A memória funciona de forma seletiva: retém o que foi significativo e descarta detalhes menores.

Por isso, a última vez que vimos alguém pode se tornar tão intensa e perfeita na nossa mente.

A realidade presente, porém, funciona diferente, e as pessoas mudam com o tempo, suas prioridades se modificam, novas circunstâncias surgem. Um reencontro traz não apenas a pessoa como ela é agora, mas também a passagem do tempo entre vocês dois — e isso pode transformar completamente aquilo que permanecia intacto na memória.

A imagem protegida desaparece no confronto com a realidade.

O que significa adiar um encontro para proteger uma lembrança

Na prática, a reflexão de Storni fala sobre uma escolha que envolve renúncia. Não é simplesmente que a pessoa não queira encontrar-se com alguém. Ela prefere manter viva a beleza do que viveu, preservada na memória, a correr o risco de destruir essa imagem em um encontro real.

Significa aceitar que há momentos da vida que não devem ser repetidos, apenas guardados.

Isso implica também reconhecer que o afeto por alguém pode coexistir com o medo. A pessoa ainda importa profundamente, mas justamente por isso seu reencontro parece perigoso. É uma forma de dizer 'te amo demais para deixar que o tempo e a realidade nos separem ainda mais'.

O lugar de 'Poemas de amor' na obra de Storni

O livro de 1926 marca uma mudança na forma como Storni abordava os sentimentos. Diferentemente de seus poemários anteriores — que questionavam convenções sociais e a liberdade feminina —, 'Poemas de amor' reúne textos breves em prosa poética centrados nas nuances das experiências amorosas.

A coletânea não idealiza o amor, mas o apresenta como algo atravessado por desejo, incerteza, separação e contradições pessoais. A frase que ecoou através das décadas faz parte dessa exploração íntima de como as relações afetivas realmente funcionam — repletas de tensões entre o que desejamos fazer e o que finalmente conseguimos fazer.

Nessa obra, o amor deixa de ser apenas um sentimento a celebrar ou criticar socialmente, e passa a ser um espaço para expressar as dificuldades e as emoções que surgem quando uma história muda ou termina.

Se ainda amamos alguém, por que evitar encontrá-lo?

Na reflexão de Storni, o amor pode ser precisamente a razão para evitar o encontro. Quando alguém ocupa um lugar importante na memória, qualquer mudança nessa imagem pode parecer uma perda. Manter a lembrança intacta se torna, então, uma forma de honrar o que aquela pessoa significou.

Não se trata de deixar de amar, mas de valorizar a imagem preservada em vez de correr o risco de destruí-la. É nessa tensão entre o desejo de reencontro e o pavor do que ele pode fazer à memória que está o conflito capturado pela poeta: os dois sentimentos podem ser verdadeiros ao mesmo tempo.



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