Esportes
Talentos mirins viram fenômenos nas redes, faturam como gente grande e ligam alerta nos clubes
Kauan Basile, Marcelinho, Flora... Garotos acumulam milhares e até milhões de seguidores com vídeos jogando futebol, fecham patrocínios e preocupam formadores: "Prejudica a aprendizagem"
| GLOBOESPORTE.COM / BRUNO CASSUCCI
Kauan Basile tem apenas 14 anos e já é acompanhado por 1,8 milhão de perfis em uma única rede social, o Instagram. O prodígio da base do Santos tem mais seguidores até do que alguns dos jogadores que defenderam a seleção brasileira na última Copa do Mundo.
O Menino da Vila é só um exemplo de um fenômeno recente no futebol brasileiro. Marcelinho Assumpção, que tem sete anos e joga no Flamengo, está perto de alcançar a marca de um milhão de seguidores. Já Lucas Flora, que está com 12 anos e passou pelo Corinthians, é acompanhado por mais de 420 mil perfis.
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Casos como esses se repetem, em diferentes proporções, por diversos clubes do país. Com vídeos de dribles, gols, belas jogadas e bastidores da vida de um atleta em formação, crianças e adolescentes atraem olhares no universo digital.
Por um lado, a fama rende oportunidades e ganhos financeiros às famílias dos garotos. Por outro, gera preocupação e cuidados especiais por parte dos responsáveis por gerir as categorias de base.
– Quanto mais exposição dos pais na rede social, mais pressão o menino irá sofrer. Quanto menos ele se expor, mais concentrado estará para conseguir fazer um bom trabalho – opina Elano, gerente da base do Santos.
Prós e contras
O número de seguidores de um jovem jogador costuma ser irrelevante para um treinador na hora de montar o time titular ou para um dirigente de clube quando vai decidir se firma ou não um contrato. Porém, é inegável que o alcance digital abre portas.
– O ponto positivo dessa visibilidade são as experiências que vivemos. Por exemplo: fomos para a Europa três vezes já convidados para eventos e torneios. A nossa família nunca teve essa ideia de viajar, fomos tirar passaporte só agora, para ir com nosso filho. São oportunidades que talvez ele não teria (se não fosse famoso) – comenta Gustavo Moreira, pai de Enrico, que tem oito anos, mais de 530 mil seguidores e joga na base do Corinthians.
Gustavo e sua esposa, Daniela, são os responsáveis por gerir as redes de Enrico. É o que acontece na maioria dos casos destes jovens atletas, até porque plataformas como Instagram e Tiktok não permitem que menores de 13 anos tenham contas. Os pais afirmam que tentam blindar ao máximo o garoto do que é dito sobre ele no ambiente virtual.
Os contratos de patrocínio são outro benefício trazido pela influência digital. Com tamanho alcance nas redes sociais, esses garotos despertam o interesse de marcas e fecham contratos dignos de gente grande.
Kauan Basile, por exemplo, é patrocinado por Nike, Aiwa e Avanutri, além de ter feito ações publicitárias para marcas como Apple, Daikin e Hyundai. Em 2025, aos 13 anos, ele assinou um contrato de licenciamento de imagem, algo incomum para atletas de sua idade.
– As empresas também querem estar atreladas a alguém que vai trazer visibilidade para elas – comenta Andrezinho, que é ex-jogador e pai de Kauan Basile.
As redes sociais do Menino da Vila são alimentadas desde que ele tinha seis para sete anos. No início, a ideia era criar uma espécie de arquivo de imagens da trajetória de Kauan. Com o tempo e aumento de seguidores, a família passou a tratar as páginas com maior profissionalismo e contratou especialistas para filmarem e fotografarem o garoto.
Embora valorize a força mental de Kauan, o pai reconhece que a exposição e a fama precoce também trazem desafios:
– Qualquer pequeno deslize que ele tem o pessoal já quer cair matando. Do tipo: "ah, ele já não é mais o mesmo, já não joga mais." O brasileiro não sabe alimentar o ídolo, né? Parece que às vezes torcem contra. Eu não digo todos, a gente tem muita mensagem de apoio, mas no meio de 100 comentários sempre tem dois ou três lá que são negativos – relata Andrezinho.
– Ele é muito xingado pela torcida adversária, já desejaram até coisa pior para ele que eu escutei. Esse lado da fama, de ficar conhecido mais do que os outros meninos, acarreta que ele sofra uma pressão maior. Mas ele carrega isso de uma forma positiva. Ele diz: "pai, deixa falar, deixa gritar." Ele já está acostumado – complementa.
Além do suporte oferecido pelo Santos, Kauan Basile tem o auxílio de um coach mental.
Gustavo, pai de Enrico, também menciona as cobranças e críticas da opinião pública como um ponto negativo dessa influência digital:
– Mesmo na idade dele já tem "haters". A visibilidade acaba gerando ódio nas pessoas. Como muitos pais querem ter isso, trabalham as redes sociais até mais do que a gente e não conseguem, gera um pouquinho de raiva, tem a questão da inveja. Mas tentamos lidar de uma forma natural, com leveza.
Do lado das marcas, o foco principal está em encontrar novas joias antes delas se valorizarem:
– Todo o ecossistema busca novos talentos cada vez mais jovens, caso dos clubes, agentes e também as marcas de materiais esportivos. De forma objetiva, é mais barato para a marca ter vários atletas que podem vir a ser grandes talentos de renome mundial do que aguardar eles virarem realidade – diz Renê Salviano, CEO da agência Heatmap e especialista em patrocínios e ativações de marketing esportivo.
Para o pai de Enrico, se bem utilizadas, as redes sociais podem servir também para inspirar outras crianças e adolescentes a praticarem esportes:
– A gente recebe muitas mensagens. Por exemplo, pais falando assim: "Meu filho só queria ficar no videogame, só queria ficar na tela. Depois que a gente viu os vídeos do Enrico, ele pediu pra ele se matricular numa escolinha." Ou criança que fala: "Enrico, vi seu vídeo, agora eu quero treinar futebol" – afirma Gustavo Moreira.
Alerta
O tema é visto com preocupação por treinadores e dirigentes de clubes, que temem a exposição exagerada possa prejudicar de diferentes formas a formação dos atletas.
– Cria-se um entorno e uma realidade totalmente diferente da que o jogador precisa de verdade. O jogador acaba sentindo que está numa outra fase, que talvez seja alguma coisa que ele ainda não é. E isso prejudica na aprendizagem, ele é um jogador em progressão e está achando que já é um craque – analisa Júlio Baptista, treinador do sub-20 do São Paulo.
– Tudo isso vai confundir o jogador até ele tomar um choque de realidade com certas decisões do treinador. É importante o fator familiar, de colocar os pés no chão do menino, de fazer com que ele seja humilde, que ele se esforce, que ele tente estar muito mais desse lado de cá (do desempenho), para poder chegar no profissional, do que desse lado dos holofotes, porque esse lado é o da desconcentração, é o lado que faz você ficar muito mais longe do seu objetivo – complementa.
Nos últimos meses, veio à tona um atrito entre o Corinthians e a família de Lucas Flora, na época com 12 anos. Pessoas do clube alegavam que os responsáveis pelo garoto faziam exigências descabidas, como a inclusão dele em campanhas publicitárias. Os pais da criança negaram tal versão, mas admitiram que desejavam o cumprimento do contrato de imagem dele, o que englobaria a participação em eventos, propagandas, entre outras ativações de marca.
Nos bastidores, dirigentes do Timão se queixavam que a fama do menino nas redes sociais fazia com que a família dele exigisse salário e benefícios incompatíveis com a idade dele.
Fontes ouvidas pelo ge em condição de anonimato afirmam que a exposição dos jovens nas redes sociais acaba por gerar até problemas de saúde mental.
– Além de criar uma expectativa e uma pressão exacerbada, tudo isso faz com que o garoto tenha uma rotina de adulto, sem tempo para brincar. Quando ele chega aos 15 ou 16 anos, já está cansado, querendo largar o futebol – disse um dirigente.
Na semana passada, Marcelo Vojnovic, que é pai do zagueiro Lyanco e empresário de atletas de futebol, publicou um texto sobre o assunto em tom de desabafo:
– Nunca vi o que tenho visto nos últimos anos. Muitos pais estão, sem perceber, acabando com a carreira dos próprios filhos antes mesmo de eles se tornarem jogadores de futebol. Estão transformando crianças e adolescentes em verdadeiros “popstars da bola', “YouTubers da bola'. É vídeo, postagem, números, seguidores, exposição e expectativa, como se o menino já tivesse uma carreira consolidada. Só que futebol de base não é sobre fama. É sobre formação – opinou Vojnovic, que completou:
– O menino precisa treinar, errar, perder, ficar no banco, ser substituído, ouvir “não', respeitar hierarquia, aprender e amadurecer. Isso também faz parte da formação de um jogador. Muitos talentos vão ficar pelo caminho. E alguns não serão por falta de futebol, mas porque os próprios pais não souberam respeitar o processo. Pai não precisa ser treinador, empresário, assessor de imprensa ou produtor de conteúdo do filho. Pai precisa ser pai.
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