O justiceiro que chamou a polícia para assistir ao próprio crime

Um influenciador forjou um flagrante, virou réu e expôs a lógica que governa redes sociais, política e a nossa atenção.

| ÚLTIMO SEGUNDO / OSCAR FILHOOSCAR FILHOCOLUNISTA DO IG, OSCAR FILHO é APRESENTADOR, ATOR, REPóRTER, HUMORISTA, ESCRITOR, COLUNISTA E EMPRESáRIO. UM DOS PIONEIROS DO STAND-UP NO BRASIL, MANTEVE O SOLO €�PUTZ GRILL€�€� POR 11 ANOS EM CARTAZ. FICOU NACIONALMENT


- Crédito: Reprodução/InstagramLuan Lennon
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O que você acha de um influenciador com mais de 1 milhão de seguidores flagrar um furto ao vivo? E o que você acha desse conteúdo ter sido forjado?

Pois é, foi o que aconteceu.

Segundo a polícia, ele deixou o vidro de um carro aberto e combinou com um flanelinha para oferecer dinheiro a um pedestre aleatório. O pedestre pegaria o celular de dentro do carro e apareceria o influenciador como um super-herói dando voz de prisão.

Ele só foi preso  porque chamou a própria polícia para o crime que estava encenando.

Ele é estudante de Direito, mas claramente não estudou direito. Montou um crime falso e chamou a polícia para assistir. Faltou na aula sobre autodenúncia.

O pedestre que era inocente virou suspeito de furto só para servir de figurante num vídeo para a internet.

O caso em si já seria suficiente para uma boa história. Mas tem mais.

Esse influenciador já produzia vídeos 'combatendo criminosos' e agora a polícia avalia investigar se outros vídeos dele também foram armados. Isso diz muito sobre a internet e lembra muito o documentário Bandidos na TV, da Netflix, com a história do apresentador Wallace Souza, acusado de envolvimento em crimes que depois viravam pauta do próprio programa policial.

A lógica é igual: tudo pela audiência.

Esse influencer já tinha sido candidato a vereador pelo PL, partido que construiu boa parte da própria imagem no discurso de combate à corrupção e à desordem. O partido não é responsável pelo que ele fez, mas se você arrota anticorrupção, o mínimo esperado é critério na hora de fazer aliança.

Não é coincidência, porque a política aprendeu a lógica das redes sociais. Partido hoje não procura só trajetória. Procura alcance e engajamento.

A lógica das redes sociais é simples: vídeo de flagrante bomba mais que vídeo de análise. Indignação viraliza mais que informação. Emoção bate argumento toda vez. O algoritmo não está nem aí para a verdade, ele se preocupa com a intensidade. Se prende atenção, tá valendo.

Como a vida real é lenta, tem gente que precisa fabricar realidade para chamar atenção. Esse cara entendeu isso melhor do que a maioria. A política também percebeu isso antes da gente.

O resultado é uma classe política que se comporta como casting de programa de TV, selecionando personagens. A estética da coragem vale mais que coragem. A performance da honestidade vale mais que honestidade. A aparência da verdade vale mais que a verdade.

O algoritmo não inventou o sensacionalismo. Só colocou ele na mão de todo mundo.

E a gente procurando o próximo vídeo de outro justiceiro fazendo justiça com as próprias mãos, sem parar para perguntar se é verdade.



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