Saúde
Canetas emagrecedoras alimentam o sonho do corpo “ideal', a indústria farmacêutica e o mercado negro
| O JACARé/BY SANDRA LUZ, DE PORTUGAL
Elas estão por todo lado: na publicidade (especialmente), nas conversas, nas piadas de bar e, principalmente, nos anseios de quem enxerga em um medicamento o caminho mais curto para chegar ao desejado corpo. As canetas emagrecedoras, elaboradas à base de drogas diversas (entre elas Wegovy, Ozempic, Saxenda e Mounjaro), movimentam US$ 1,8 bilhão anuais e, somente no Brasil, podem chegar a US$ 9 bilhões até 2030, conforme projeção do Itaú BBA, o que equivale a um crescimento de 40% em cinco anos.
A mesma entidade revela que as ações de empresas de varejo nacionais tiveram crescimento de até 102% no ano passado, apenas com as canetas emagrecedoras, com evolução de vendas em 79,7%, de acordo com dados da Abrafarma Associação Brasileira das Farmácias e Drogarias). A procura cresce, mesmo com o preço a rondar R$ 2 mil por unidade, valor que impulsiona o mercado negro.
Somente em 2025, de acordo com a Abrafarma, há 600 registros de roubos e furtos de canetas emagrecedoras por mês no Brasil. Para a indústria, fica um prejuízo de R$ 288 milhões e, para o consumidor, legalizado ou receptador, um alerta: os produtos têm complicações e podem levar ao óbito do usuário.
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) investiga 65 mortes por suspeitas de complicações associadas ao uso das canetas. Todos os casos foram registrados em 2025, ano de liberação do medicamento. Também em 2025, a agência recebeu 2.436 notificações pela plataforma VigiMed reportando eventos adversos ligados ao produto.
Além dos óbitos, a Anvisa apura 145 casos suspeitos de eventos adversos em relação a problemas no pâncreas, seis deles com evolução para óbito. Os casos de pancreatite já foram reportados em outros países, como o Reino Unido, onde a agência reguladora registrou 19 mortes entre 1.296 notificações.
Conforme a Anvisa, os medicamentos — que incluem substâncias como semaglutida, liraglutida e dulaglutida — pertencem ao grupo dos agonistas do receptor de GLP-1. Este é um tipo de substância que imita o hormônio GLP-1, produzido no intestino para ajudar a controlar os níveis de açúcar no sangue, estimular a liberação de insulina e promover saciedade. Já a tirzepatida atua de forma semelhante, mas é um agonista duplo, agindo nos receptores de GLP-1 e GIP.
A pesquisa que resultou nas substâncias teve como objetivo atender a pacientes com diabetes tipo 2 e/ou obesidade e, mesmo para estes, o uso deve sempre ser feito com acompanhamento médico. A Anvisa alerta que a pancreatite está listada como risco na bula desde os primeiros lançamentos dos produtos.
Há, contudo, uma observação da própria Anvisa sobre os benefícios terapêuticos ainda superarem os efeitos adversos, de acordo com as indicações e modos de uso aprovados e presentes nas bulas. Ou seja, ainda que possam gerar problemas, os benefícios das canetas superam os riscos, mas é preciso fazer o uso a partir de indicação médica. Isso quer dizer que nem todas as pessoas podem ser submetidas à terapia.
Os demais riscos associados às canetas emagrecedoras são: perda de visão e aspiração durante procedimentos anestésicos. Desde 2025, a Anvisa determinou a retenção das receitas médicas do produto pelas farmácias. Essa é uma forma de tentar alertar, ainda, sobre a compra indiscriminada no mercado paralelo de produtos roubados.
As “canetas emagrecedoras' são medicamentos injetáveis usados para tratar diabetes tipo 2 e obesidade. Elas imitam um hormônio natural do corpo chamado GLP-1 (semaglutida, liraglutida e dulaglutida), produzido no intestino para ajudar a controlar os níveis de açúcar no sangue, estimular a liberação de insulina e promover saciedade. Já a tirzepatida atua de forma semelhante, mas é um agonista duplo, agindo nos receptores de GLP-1 e GIP.
No cérebro: A caneta atua no centro da fome. Resultado: você sente menos fome.
No estômago: retarda o esvaziamento do estômago.
No pâncreas: estimula a liberação de insulina quando o açúcar está alto. Também reduz o glucagon (hormônio que aumenta a glicose). Isso melhora o controle glicêmico.
*Informações do Itaú BBA, da Abrafarma, da Anvisa e da Fiocruz
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