Vanderlei Cordeiro chora ao citar infância na lavoura: "Minha mochila era um pacote de arroz"

Ex-atleta, que cresceu sem luz elétrica em casa, explica por que nunca reviu padre irlandês, recorda acidente antes de Atenas e cita cerveja em posto de gasolina após acender a pira: "Fui hidratar"

| GLOBOESPORTE.COM / FELIPE BRISOLLA E MARCELO BARONE


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Tênis de corrida, short preto e camiseta esportiva laranja. No pulso, um relógio digital com números enormes. Vanderlei Cordeiro de Lima está sempre pronto para correr. Desta vez, porém, o desafio é outro: uma "maratona" de perguntas sobre sua vida - e carreira - na gravação do quadro "Abre Aspas", do ge, no Rio de Janeiro.

Morador de Porto Rico, no interior do Paraná, Vanderlei age com discrição e simplicidade, características imutáveis mesmo depois da fama, quando conquistou o bronze olímpico em Atenas 2004 após ser abalroado pelo padre irlandês Cornelius Horan enquanto liderava a maratona. Uma imagem tão surreal quanto histórica.

— A conquista de um bem material pode transformar o ser humano, deixar de ter aquela essência. Mas somos todos iguais. Não é uma medalha, um troféu, que vai fazer o Vanderlei maior do que qualquer um. Aliás, nunca fui grande, grande sempre foi a minha história, eu continuo pequeno (risos).

Embora seja reservado, Vanderlei, de 56 anos, gosta de bater papo. A descontração só dá lugar às lágrimas ao imergir no seu passado na lavoura e revolver as lembranças de uma infância paupérrima. Ele diz que se emociona de alegria. Um choro de quem não tinha luz elétrica em casa aos 17 anos e, ainda assim, seguiu seu percurso sem utilizar atalhos.

— A minha mochila era um pacote de arroz. Quando comecei, não tinha condições de ir às corridas, apelava para os amigos e para os comerciantes. Dá saudade porque (chora)... Falei que não ia fazer isso. Essas emoções são de alegria. Isso foi saudável para minha formação, meu caráter. E nem começamos a falar do padre ainda (risos). São lembranças que ajudaram no meu crescimento. Era muito difícil. (...) As pessoas me pediam para desistir. Uma vez fui correr em Palmas, no interior do Paraná. Fui até Pato Branco, perdi o ultimo ônibus e não tinha recurso nenhum. Eu dormi no banco da rodoviária no inverno. Tinha um agasalho fininho. Eu nunca passei tanto frio na minha vida como lá, esperando o outro dia. Foi uma coisa marcante na pele, na alma. Por isso até hoje eu tenho trauma de frio.

Sem jamais desistir, Vanderlei cresceu no esporte, foi campeão de várias maratonas pelo mundo, se tornou bicampeão pan-americano e medalhista olímpico na capital da Grécia, o berço dos Jogos. Conheceu dezenas de países, foi homenageado com a medalha Pierre de Coubertin, a maior condecoração de cunho humanitário-esportivo concedida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) por sua conduta no fatídico episódio em Atenas. Doze anos depois, foi o responsável por acender a Pira no Maracanã, na abertura da Rio 2016. Vivenciou um novo momento de estrelato, mas se manteve fiel às origens humildes ao celebrar o feito com uma cervejinha em uma loja de conveniência de um posto de gasolina.

— Ninguém estava acreditando. "Esse foi o cara que acendeu a pira? Isso é fake (risos)". Foi inesquecível. Quem convive comigo sabe que eu sou assim, não mudo. E aí falam: "Atleta bebe?". Não, hidrata, então, fui hidratar (risos). Foi legal, gostoso poder comemorar, dividir a emoção com aqueles ao meu redor. Tinham os frentistas, pessoas comuns. É uma lembrança boa de ser contada.

Ficha técnica:

Nome: Vanderlei Cordeiro de LimaNascimento: Cruzeiro do Oeste, Paraná, em 4 de julho de 1969 (55 anos)Apelido: BudeguinhaParticipações Olímpicas: Atlanta 1996 (47º lugar), Sydney 2000 (75º lugar) e Atenas 2004 (3º lugar)Títulos: Único latino-americano outorgado com a Medalha Pierre de Coubertin, medalhista de bronze nas Olimpíadas de Atenas, medalhista de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg 1999 e Santo Domingo 2003, campeão das Maratonas de Tóquio e Hamburgo

Abre Aspas: Vanderlei Cordeiro de Lima

ge: O que mais te orgulha na sua vida?

— É ser simples, ter simplicidade. Dentro da minha carreira e da minha vida pessoal, não me deixei levar pelo ego. Eu me considero uma pessoa normal. Nunca me engrandeci. Eu prefiro ser reconhecido de fora, não dentro de mim, enchendo o ego ou me deixando levar por algo que pudesse interferir na essência que recebi dos meus pais. Esse é o Vanderlei, assim que me enxergo, mesmo diante de toda a trajetória no esporte. No cotidiano, me sinto o Budeguinha, como sou chamado no Paraná, meu apelido de infância. A vivência familiar me fez a pessoa que sou. Olhando no espelho, me vejo igual ao meu pai e à minha mãe, pessoas muito simples, humildes. As pessoas se perdem na grandeza, nas conquistas. A conquista de um bem material pode transformar o ser humano, deixar aquela essência. Somos todos iguais. Não é uma medalha, um troféu, que vai fazer o Vanderlei maior do que qualquer um. Aliás, nunca fui grande, grande sempre foi a minha história, eu continuo pequeno (risos).

Como a corrida surge na sua vida?

— Eu estava frequentando o ginásio, aos 16 anos, quando o professor de Educação Física me convidou para participar dos Jogos Escolares. Morava em um bairro de pessoas simples, que se reuniam no meio do pasto no fim do trabalho e improvisavam uma bola para brincar. Idolatrava os grandes jogadores de futebol, não tinha contato com outras modalidades esportivas. Eu não tinha televisão em casa. Queria ser jogador de futebol até que o professor me chamou para os Jogos Escolares. Não fui com o intuito de me tornar atleta, eu queria viajar. A partir daquele momento vi que o esporte era mais do que eu imaginava. Não foi o Vanderlei que escolheu a corrida, a corrida escolheu o Vanderlei. Entrei na corrida dessa forma. Não foi planejado, aconteceu.

Quais as dificuldades que enfrentou pela falta de recursos?

— No início da carreira, para participar de corridinhas na região, era difícil. Eu trabalhava na roça o dia todo. Acordava às 4h30 e voltava às 16h30. Muitas vezes voltava correndo até as forças aguentarem. Eu estava sempre contrariando a tudo e a todos, mas me apaixonando pela corrida. Nunca esqueço a vez em que eu estava na porta da casa do vizinho, acompanhando um programa esportivo, e vi o Joaquim Cruz dando a volta olímpica em Los Angeles. Aquilo nunca saiu da cabeça, eu pensei: "Um dia quero estar nos Jogos Olímpicos". Na minha realidade, era um sonho impossível.

— No inverno, o estado mandava a flanela, o tecido branco, o tecido da calça e minha mãe fazia à mão para poder ir à escola. A minha mochila era um pacote de arroz com duas alças do lado. Quando comecei, não tinha condições de ir às corridas, apelava para amigos e comerciantes. O montante dava só para a ida, não tinha como retornar. E a alimentação? Fruta, que era mais em conta. Quando tinha condição, era pão, mortadela e tubaína. Olhando para o passado, são boas lembranças. Dá saudade porque (chora)... Falei que não ia fazer isso. Essas emoções são de alegria. Isso foi saudável para minha formação, meu caráter (chora). E nem começamos a falar do padre ainda (risos). São lembranças que ajudaram no meu crescimento.

— Era muito difícil. O meu pai recebia o pagamento da semana no sábado e ia para o armazém, porque comprava fiado. Ele dava o dinheiro todo no armazém e ficava devendo três vezes mais. Nunca sobrava dinheiro para calçado ou roupa. Era muito difícil.

Apesar da vontade de ser atleta, a maratona entrou por acaso, certo? Você foi o "coelho" em Reims e acabou vencendo a prova...

— O planejamento era fazer minha primeira maratona em 1995, buscando as Olimpíadas de Atlanta 1996. Em outubro de 1994, eu estava na França, correndo provas mais curtas, de 21km. De sábado para domingo, fui chamado para ser o "coelho" da maratona de Reims e correr os 21km por 300 euros. Eu tinha que treinar nesse dia, então meu treinador falou: "Faz a quilometragem do treino e vai". A organização pediu para eu correr 3min05s por quilômetro como "coelho", ditando o ritmo. Eu ia correr 21km, mas como meu treino era de 25km, falei: "Vou até os 25". Fui me empolgando, me sentindo bem e cheguei no quilômetro 30. Passei os 35 na liderança, os 40 na liderança e aquilo virou uma euforia dentro de mim. E acabei vencendo a prova.

— Fui campeão na minha primeira maratona, sem treinar, em 2h11m06s. Estava eufórico, feliz da vida. Eu não ganhei 300 euros, ganhei 2 mil euros. Era uma grana boa (risos). E eu todo feliz querendo falar com o Ricardo (D'Angelo, treinador). Quando eu consegui, ele me deu um esporro: "Por que você fez isso? Estragou o que a gente planejou". Eu falei: "Ricardo, eu venci a maratona. Fiz 2h11m06s". Ele esqueceu a bronca e começou a comemorar (risos). Foi transformador.

Antes de Atenas 2004, você disputou dois Jogos Olímpicos e teve um desempenho ruim em ambos. Por quê?

— Eu treinei muito para Atlanta, a expectativa era estar dentre os 10 melhores. Foi um resultado (47º lugar) decepcionante. Por outro lado, na minha primeira Olimpíada, eu estava junto com o Joaquim Cruz, aquele atleta que vi na televisão do vizinho, o atleta que me inspirou a alimentar esse sonho. Eu sempre usava o tênis no treinamento para não ter nenhum problema na prova. Em 1996, eu era patrocinado por uma marca, que desenvolveu um tênis específico para Atlanta. Mas não chegou para mim no Brasil. Fui receber o calçado um dia antes da prova. Não tive tempo de colocar nos pés, sentir segurança e conforto.

— Atlanta foi um dos Jogos mais quentes da história, o suor acumulou no calçado, criou um atrito e, no quilômetro 35, senti duas bolhas de sangue na planta do pé. Parecia que estava pisando em brasas. A condição física era muito boa, mas as bolhas me incomodaram tanto que pensei em desistir da prova. Terminei triste, mas, quando vi as condições ao tirar o calçado, era impossível. A partir de Atlanta, coloquei na cabeça que conquistaria uma medalha olímpica. Em Sydney, faltando 15 dias para os Jogos, torci o tornozelo. No decorrer da prova, começou a doer, terminei em 2h36m. Fui até o final. Teimoso, né?

E pouca gente sabe ou se recorda, mas antes de Atenas você sofreu um acidente de moto.

— Eu estava no interior do Paraná, me meti a besta de andar de moto. Foi uma fatalidade. Eu me acidentei, fraturei o ombro esquerdo. O difícil foi comunicar ao Ricardo, porque ele me detonou. "Você não podia ter feito isso! É ano olímpico". Deu uma lição em mim, mas falou: "Se você acredita em mim, como eu acredito em você, venha para Campinas". Eu pensei: "O Ricardo está doido, não sabe a dor que estou sentindo". Juntei minha malinha e no dia seguinte cheguei em Campinas. Fiz fisioterapia, voltei a treinar com o braço imobilizado. Fui para a Maratona de Hamburgo, nível altíssimo. Na reta final só tinham cinco africanos e eu. "Esses caras vão ter que correr muito para ganhar de mim hoje". Cruzei a linha de chegada em primeiro, carimbei meu passaporte para Atenas. Fui com movimentos limitados para lá. Quando eu chego em Atenas fazendo o aviãozinho, pode notar que não ergo meu braço no ombro esquerdo. Tenho uma limitação até hoje, não consigo abrir totalmente. Foi um momento de provação em Hamburgo, e eu mal sabia o que enfrentaria em Atenas 2004. Por mais que tenha vivido aquele momento de glória pela medalha, foi o ano mais difícil da minha vida e da minha carreira em todos os sentidos.

Depois de duas Olimpíadas frustradas, quase veio a terceira. Você liderava a maratona de Atenas, até o padre irlandês invadiu a pista...

— Quando aconteceu aquele episódio da agressão, eu estava muito concentrado na prova. Tinha uma multidão no decorrer do percurso aplaudindo, gritando Brasil, mas eu não tinha olhos para nada que estava ao meu redor. Eu estava em um "túnel" que só enxergava o estádio. Quando o agressor, o padre irlandês Cornelius Horan, me agrediu, ele não estava na minha pista de rolamento. Ele me agrediu pela lateral. Eu só vi um vulto. Do nada, o cara pulou na minha camiseta, foi me empurrando, caindo para a calçada. Claro que veio uma descarga de adrenalina negativa, de ansiedade, de medo, de frustração. Eu saí daquela situação e as pernas tremiam.

— Eu perdi minhas pernas ali, mas a vontade de continuar foi determinante. Por mais que eu tenha me abalado, aquela mentalização (nos treinos) me levou até o final. Mesmo com esse problema, permaneci na liderança até o quilômetro 39, quando fui ultrapassado pelo (Stefano) Baldini e pelo Mebrahtom (Keflezighi). Estava na terceira colocação. Quando olhei para trás e vi que não tinha mais ninguém, só pensava em ganhar minha medalha. O estádio se levantou, aplaudiu, eu já tinha esquecido do padre (risos), nem me lembrava da agressão. Estava vivendo aquele momento da conquista da medalha.

- Não tinha outra pessoa mais alegre do que eu naquele momento. Eu era a pessoa mais feliz, independentemente do que tinha acontecido nos quilômetros anteriores. A felicidade veio à tona, não teve lamentação, frustração. Estava feliz da vida. Passou um filme na minha cabeça de onde eu saí. Eu estava no berço dos Jogos Olímpicos. Reclamar do quê? Tenho que agradecer. É um momento que poucos atletas na história dos Jogos viveram. Estava sendo um dos heróis dentro do estádio, me deixou orgulhoso como eu conduzi. Sou pacífico. Sempre aceitei do jeito que o universo me ofereceu.

Quando foi que você passou a entender, realmente, o que havia acontecido no percurso?

— Fui para a coletiva, um momento de muitas perguntas sobre o episódio, mas até então, não tinha caído a ficha. Fiquei uns dois dias em Atenas e, ao longo daquela semana, fui me dando conta da dimensão do que vivi. Eu achava que era um fato corriqueiro, depois fui entendendo a repercussão, porque as informações foram chegando. Não foi um episódio normal. Foi impactante não só para os Jogos, mas para o mundo inteiro. Foi caindo a ficha. Quando olhei a imagem em um primeiro momento, parecia que não era eu que tinha passado por aquilo. É um momento que traz medo, angústia, mas não por ter trauma, pois nunca tive.

— Parecia que não era eu dentro daquela realidade. As pessoas ainda perguntam: "Qual é o sentimento que você tem daquele padre? Você tem raiva?". Eu não consigo guardar dentro de mim raiva ou frustração. Não faz parte da minha lembrança em detalhes. No meu sentimento, não consigo descrever como foi. Foi muito rápido, questão de segundos, acho que eu estava blindado emocionalmente por aquele impacto, que poderia ter sido diferente na reação de outro atleta. Para mim, foi como se eu tivesse caído, me levantado e saído andando.

Por que jamais quis reencontrar o padre irlandês?

— Cogitou-se um encontro formal com o Cornelius. Olhando pelo outro lado, a atitude dele não foi exemplar. Se eu aceito encontrá-lo, estaria dando ênfase ao que ele se propôs a fazer, enalteceria o ato dele. Por isso achei melhor não encontrá-lo. Eu poderia tirar proveito disso, me enaltecer. Pensando dessa forma, achei melhor não. Quando cruzei a linha de chegada, no calor da emoção, a primeira pergunta foi: "Você perdoaria o ato do padre irlandês?".

— De coração aberto, eu falei que perdoaria, que minha conquista era maior do que a decepção de não ter ganho a medalha de ouro. Foi um perdão de coração, de grandeza. Eu me sinto leve, tranquilo, não tem trauma, não tem frustração.

Na época, o Comitê Olímpico do Brasil encaminhou um pedido à Corte de Arbitragem do Esporte pedindo que você fosse considerado campeão da prova, assim como o italiano Stefano Baldini, que faturou a medalha de ouro. Achou injusto não terem aceito a proposta?

— O COB decidiu buscar o reconhecimento. Houve uma grande falha na segurança, jamais aquele padre deveria estar na pista da maratona. Fui prejudicado. Não por vontade própria, mas o COB entrou com recurso para rever a situação. Quem sou eu para julgar ou querer alguma coisa? Claro que, se a situação pudesse ser diferente, enalteceria o trabalho da confederação, do COB. Uma medalha é muito importante para a gestão dessas entidades e valorizaria meu feito dentro da maratona, porque fui prejudicado. Foi uma luta, o COB buscou todas as instâncias para reverter a situação e, infelizmente, acabou não havendo a revisão. Por outro lado, o mais importante é o reconhecimento que tenho no meu dia a dia, no meio do esporte. Isso repara um pouco aquilo que poderia ser uma frustração por não ter conquistado a medalha de ouro. Pessoalmente, eu nunca reclamei, nem reivindiquei nada. Sempre fui feliz com a minha conquista.

Você trocaria a sua Medalha Pierre de Cobertin pelo ouro olímpico?

— (risos) Eu preferia que nada disso tivesse acontecido e que eu pudesse ter tido a chance de lutar até o final pela medalha (de ouro). Tenho certeza que se eu tivesse chegado na quarta colocação, minha alegria e comemoração seriam da mesma forma. Ser agraciado com a Barão Pierre de Coubertin foi uma consequência de uma história, de uma trajetória, de um momento, que me concedeu a maior honraria do Comitê Olímpico Internacional. Eu trocaria tudo para viver aquele momento sem nenhum obstáculo, sem nenhuma situação diferente, independentemente do resultado final.

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O bronze olímpico foi a realização de um sonho, mas a Medalha Pierre de Cobertin apenas 21 pessoas têm. Qual é a mais especial da sua carreira?

— Quase ninguém tem, mas ninguém planeja conquistar a Barão de Coubertin. Por outro lado, a medalha olímpica, todo mundo sonha, se planeja. A minha maior conquista é a medalha olímpica. A Pierre de Coubertin foi a consequência da minha conduta. Não justifica um atleta procurar um atalho, querer sobressair diante do adversário buscando algo que não seja digno do que o esporte ensina. Tudo que aconteceu foi consequência da resiliência que o esporte me deu. Eu não trocaria a minha medalha de bronze pela Pierre de Coubertin.

Há uma certa contradição, porque você viveu muitas coisas devido à sua grandeza depois do episódio em Atenas. E você preferia não ter vivido isso. O ouro olímpico seria maior do que tudo?

— Você tem uma vida toda de muita renúncia, de tudo que você gosta, da família, dos prazeres, para buscar aquele momento único. E você só tem uma chance. E vem um fato que tira a possibilidade de uma vida toda dedicada para viver aquele momento. Não tem como você trocar. Foi uma construção. Não foi algo que você diz "estou dentro". É um processo que poucos atletas na história olímpica vão chegar. São poucos atletas que terão esse compromisso de renúncia, o comprometimento de seguir adiante. Eu procurei isso para a minha vida. Eu trocaria tudo para viver o caminho normal para chegar ao meu objetivo mesmo que não tivesse alcançado a medalha de ouro. Todos que chegaram lá sabem o que estou falando. A medalha Pierre de Coubertin veio valorizar ainda mais o que é o olimpismo, que está se perdendo de uns anos para cá. É uma vida toda de renúncia para viver um momento único, que foi tirado de mim.

Em 2016, um outro momento especial marcou a sua trajetória. Conte-nos os bastidores da sua escolha para acender a pira olímpica no Rio de Janeiro.

— Eu sempre tive vontade de estar na Abertura dos Jogos, nunca tinha ido. Quando o COB me convidou para fazer parte da cerimônia, fiquei muito feliz. O papel que me passaram na véspera dos Jogos era de que eu seria o porta-bandeira do juramento do atleta, não tinha relação nenhuma com a pira olímpica. Estávamos certos de que seria o Pelé a acender. Depois fui comunicado de que havia mudado o cronograma: "Vanderlei, você vai ser o protagonista do acendimento da pira olímpica". Ah, está bom, beleza. Depois de cinco minutos foi cair a ficha sobre o momento que eu iria viver. E o pior de tudo: eu não podia falar para ninguém, nem para família, nem para amigos. Foi muito difícil. Criou uma ansiedade grande. Eu me lembro que, dentro do Maracanã, quando chegamos bem cedo lá, ficamos no camarim com os outros atletas e artistas especulando. Eu sabendo que era eu (risos) e não podia falar nada.

Como se sentiu ao ser escolhido em meio a tantos ícones do esporte?

— Eu olhava para cada um daqueles atletas que, quando iniciei a minha carreira, olhava como ídolos, inspiração. O Tande fez uma roda de atletas e bateu na minha cabeça: "Baixinho, vai lá no meio da roda". E pediu a palavra: "Estamos orgulhosos dessa escolha, porque você representa cada um de nós". E eu pensando: "Quem sou eu diante desses monstros do esporte?". Foi algo que está na minha memória, no meu coração. É como se eu estivesse dentro do Maracanã agora.

— Tive que fazer um ensaio para o acender a pira. Tinha um colaborador no meio do Maracanã com uma jaqueta de manga comprida, porque estava sol. O diretor foi lá: "Empresta essa jaqueta". Outro colaborador estava com um chapéu de pescador, óculos escuros... Ele pegou tudo isso para mim. Ensaiamos duas ou três vezes. Entrei e saí disfarçado, ninguém percebeu. Quando o Guga (Kuerten) entrou no Maracanã e entregou a tocha para a Hortência, ela caminhou até a escada e eu me posicionei no primeiro degrau. Foi emocionante, indescritível, passou um filme na minha cabeça de toda a trajetória. Quando cheguei perto da pira, eu olhei para dentro de mim: "Valeu a pena, né?". Quando eu apresentei a tocha, o Maracanã tremia. É difícil descrever a sensação. Foi o momento mais glorioso da minha vida e da minha carreira. Ali eu recebi meu reconhecimento.

Alguns ex-atletas foram comemorar com amigos e familiares, outros em festas e compromissos com patrocinadores. Onde você celebrou depois da abertura?

— Eu fui um dos últimos atletas a sair do Maracanã. Havia uma logística para ir ao hotel. Voltando para pegar o transporte, tinha um posto de gasolina, e falei com a produtora: "Vamos hidratar, passar ali um pouquinho e comemorar". Quando eu cheguei no posto, parecia que tinha uma reunião de repórteres, a imprensa estava ali. Virou uma muvuca. Foi um momento marcante. Foi simples, do jeito que eu sou, não tinha holofote porque o Vanderlei tinha acendido a pira. Ninguém estava acreditando. "Esse foi o cara que acendeu a pira? Isso é fake (risos)".

— Foi inesquecível. Quem me conhece e convive comigo, sabe que eu sou assim, não mudo. E aí falam: "Atleta bebe?". Não, hidrata, então, fui hidratar (risos). Foi legal, gostoso poder comemorar, dividir a emoção com aqueles ao meu redor. Tinham os frentistas, pessoas comuns. É uma lembrança boa de ser contada.

Você ainda mantém hábitos da vida no campo. Soubemos que você vai pescar e fica offline durante alguns dias, deixando os parentes preocupados.

— Na minha propriedade, sou o Severino: faço tudo. Sou do campo. Plantar capim, mexer no maquinário, fazer cerca, cuidar dos animais, andar a cavalo. Essa é a coisa mais prazerosa. Minha propriedade é meu paraíso. Estou lá com as pessoas mais simples. Tem uma vendinha chamada Três Marcos, onde o pessoal que trabalha no campo se reúne para a resenha no fim do dia. É muito legal, um ambiente gostoso. Hoje moro em Porto Rico, tenho o privilégio de morar às margens do Rio Paraná, que era o meu sonho. Aprendi a pescar por necessidade aos oito anos. Meu pai e eu nos deslocávamos até 15km a pé, com um monte de vara de bambu, e passávamos o dia todo no rio, sem alimentação, nem nada.

- Pescávamos porque precisávamos do peixe para nos alimentarmos. Hoje, se eu pegar um peixe ou não, não reclamo. Só de estar contemplando a natureza, o rio, o entorno, é muito bom. Frequento os lugares mais simples que você possa imaginar na beira do rio. Tem um barraquinho de madeira que fica na ilha que não tem nada, mas tem tudo. Tem a natureza, o universo conspirando a favor. Toda vez que eu vou lá me renovo. Quando eu vou pescar eu esqueço do mundo. Não atendo o celular, o sinal já não pega. Fico dois, três dias sem dar notícias. O pessoal fica preocupado, mas é meu jeito. Lá eu esqueço de tudo, é muito bom.

Atualmente, essa vida rural tem um certo conforto. Mas, de vez em quando, você reflete sobre estar novamente no campo, mas em um contexto bem diferente de antigamente?

— A gente sempre morou numa casinha de madeira muito simples. Até os 17 anos não tínhamos energia elétrica na nossa casa. E, se você olhar a minha idade (56 anos), não faz tanto tempo assim. Foi um infância pobre. A gente tinha lamparina, fogão à lenha e radinho de pilha, que era sagrado para o meu pai ouvir a Voz do Brasil e despertar de madrugada para ir ao campo às 4h30. Tinha época que era colheita de café, outra de algodão. Pegava foice, limpava pasto. Não era um trabalho mensal. Quando tinha, né? Era uma vida de muita dificuldade. Isso me faz valorizar desde a pequena conquista até tudo que tenho hoje. Passar por esse processo ajudou a valorizar a história.

Era "contra tudo e contra todos". Não pensou em desistir?

— Esse pensamento vinha à tona todos os dias, nada conspirava a favor. Foi muita persistência, tinha tudo para desistir. O amor pelo esporte falou mais alto. (...) Eu batia na porta do comércio, e as pessoas me pediam para desistir. "Budega, isso não vai te levar a lugar nenhum. Vai fazer outra coisa, isso não dá futuro". Eu nem ligava, queria fazer o que eu gostava, meu sonho. Uma das histórias marcantes foi em uma das minha primeiras corridas, em Cascavel. Eu não tinha experiência, eram quatro quilômetros, saí que nem um louco, um cavalo paraguaio. Corri mil metros, acabaram as pernas. Parecia que eu ia morrer, cara. Correr é difícil. Não ganhei nada, mas foi um grande momento. No pós-corrida, o jantar foi melancia.

— Outra vez eu saí de Cruzeiro do Oeste para correr em Palmas, no interior do Paraná. Fui até Pato Branco, perdi o último ônibus e não tinha recurso nenhum. Eu dormi no banco da rodoviária no inverno. Tinha um agasalho fininho. Eu nunca passei tanto frio na minha vida como lá, esperando o outro dia. Foi uma coisa marcante na pele, na alma. Tenho trauma de frio até hoje. Minha família tem trauma de frio porque... Quantas vezes trabalhamos no inverno e fizemos um fogão de pó de serra numa lata para aquecer a casa? A casa era de telha, não tinha forro. Tinha assoalho de madeira. Passamos muito frio, sentimos na pele. Tudo isso fez com que a gente pudesse ser mais resistente. Tudo isso me preparou para a vida.

O que o manteve no caminho do esporte?

— O esporte me enchia de grandeza. Eu não ganhava um centavo na corridinha, mas chegava com uma medalhinha, um troféu, e a alegria do meu pai, da minha mãe, dos meus irmãos, me colocava lá em cima. Essas pequenas vitórias criavam perspectiva e moral dentro da minha casa. O que era uma medalha para o meu pai e para a minha mãe? Era deslumbrante, novo. Colocar em cima da mesinha de madeira, era uma joia. Era algo interno, familiar, mas nos enchia de orgulho. Isso fez com que o Vanderlei não desistisse desse caminho.

— A corrida foi a ferramenta. Eu queria viajar, conhecer o mundo e, através da corrida, consegui meu primeiro emprego de carteira assinada. Hoje tenho um Instituto e vejo no olhar de cada uma das crianças o que não tive. Um uniforme, um lanche, cria perspectiva de que as coisas possam ser diferentes. No legado, nos valores, no comportamento. O esporte nos encoraja, nos faz forte. Fazer esporte não é para qualquer um. É a maior ferramenta de transformação na vida de um ser humano.

Sofreu preconceito ao longo da vida?

— Preconceito, bullying... Na verdade, os menos favorecidos são excluídos. Nós mesmos nos excluímos. Quando eu era criança e frequentava a escola, eu tinha vergonha de mim mesmo, porque não tinha condições de estar em momentos que a escola promovia. Eu olhava para mim e me sentia excluído porque não tinha uma roupa, um calçado. O que eu faria em uma ambiente que não pertencia? Eu me excluía. Preconceito? Nunca me dei conta disso. Eu sempre lutei, nunca dei ouvidos ao que estava ao meu redor. Cada um tem que buscar o que quer de melhor na vida. As pessoas se sentem injustiçadas, discriminadas. Parem com isso, vamos trabalhar, fazer a nossa parte. As pessoas estão mais preocupadas com essa questão de preconceito do que com o trabalho. Quantas vezes falaram do Vanderlei? Falaram mal ou falaram bem, falem do Vanderlei, lembrem do Vanderlei (risos). Eu sempre fiz a minha parte, isso que é importante.

A gente vive um momento de muita vaidade no esporte, o que é muito diferente do seu perfil, um excesso de "eu". Como você enxerga esse mundo de ego e aparência no universo esportivo?

— Eu tenho uma barreira. Eu poderia explorar um pouco mais as mídias sociais. Isso influencia essa nova geração de atletas. É o imediatismo. Todo mundo usa as redes sociais como se estivesse lá na frente, ninguém quer passar pelo processo. O esporte não tem atalho. Se você quer ser grande, tem que passar pelo processo. Esporte é sangue, suor e lágrimas. Lágrimas de dor e alegria por ter passado pelo processo. É uma geração que coloca muitas barreiras. Olha a infraestrutura e apoio que tem hoje em comparação com a minha geração. A gente não tinha nada e conseguiu fazer muito pelo esporte brasileiro. Hoje tem-se muito e faz-se muito pouco. O talento está aí, temos muitos dentro do esporte, uma diversidade grande no nosso país. A gente vai tirar muito desses novos atletas. Eles têm muito a dar ao esporte brasileiro. Eu fico meio ofuscado diante de tudo isso, poderia aproveitar para explorar mais minha imagem, mas prefiro ficar quietinho. É meu jeito de ser.

O que você sonha tanto na vida pessoal quanto na profissional?

— A gente tem alguns sonhos na vida. Eu quero que todas as crianças e jovens tenham a possibilidade de fazer esporte. Esporte é muito mais que rendimento esportivo, é emocional, comportamental. Esporte e educação têm que caminhar juntos. No dia que isso acontecer na escola, teremos uma sociedade cada vez melhor. Ver o esporte dentro da escola é um dos grandes sonhos. Educação Física fazia parte do currículo escolar. Sou fruto dos Jogos Escolares, a maioria dos atletas vieram daí. Isso contribui para uma sociedade melhor. Quero uma sociedade mais justa. Políticos mais honestos, um sistema favorável a uma sociedade melhor. Olhamos os nossos filhos, netos e sabemos que eles vão passar por um processo difícil. A gente colocava muita esperança, mas vai acabando por tudo que está acontecendo no país. Tem coisas que vejo que não foi o que o esporte me ensinou. Queria um país melhor.

Você tem medo de alguma coisa?

— Cara, o que mais me perturba hoje é a violência no nosso país. Tirando isso, não tenho medo de nada, não.

Qual foi o bem material que você conquistou que te deixa orgulhoso?

— Tudo que conquistei foi pela canela (risos), através das minhas pernas, de esforço e dedicação. Trabalhei na lavoura. Sou o filho caçula e, desde criança, trabalhei prestando serviço a outras pessoas que tinham terras, condições melhores. Foi uma infância pobre, de poucos acessos, mas com o sonho de ter um pedacinho de terra. Nunca tive um olhar de ter carro ou moto. Eu sempre tive aquela preocupação: "No dia que tiver condição, vou comprar um lugarzinho para ter um teto". O que eu mais queria era ter um pedacinho de terra. E eu realizei.



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