Guerra na África gera protestos contra o Arsenal por patrocínio milionário; entenda

Clube inglês é críticado por estampar propaganda do governo de Ruanda, enquanto país financia grupo rebelde que tem levado sofrimento “inimaginável' à República Democrática do Congo

| GLOBOESPORTE.COM / RODRIGO LOIS


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O Arsenal virou alvo de fortes críticas e protestos por causa do patrocínio milionário — mais de R$ 70 milhões por ano — que mantém com Ruanda . O governo de lá é acusado de participar diretamente em um dos mais violentos conflitos na história da África, que provocou a morte de 3 mil de pessoas e deixou outras milhares feridas nas últimas semanas na República Democrática do Congo, país vizinho.

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O patrocínio de Ruanda começou em maio de 2018, foi renovado em 2021, e hoje o Arsenal ganha 10 milhões de libras por ano (R$ 72 milhões) para estampar "Visit Rwanda" na camisa. O Rwanda Convention Bureau, departamento de governo, se tornou o primeiro parceiro oficial de manga do clube, com o objetivo de aumentar o turismo para o país. A logo também é exposta em jogos no Estádio Emirates, em Londres.

Só que as críticas ao Arsenal voltaram, e com força, nas últimas semanas por causa dos conflitos na República Democrática do Congo (RDC) . O grupo rebelde M23, que recebe apoio direto do governo de Ruanda segundo especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU), tomou o controle da cidade de Goma, a maior do leste da RDC, com mais de um milhão de habitantes.

— Milhares de pessoas estão cercadas em Goma, com restrições de acesso à água, comida, segurança. Muitas vidas foram perdidas. Estupros, assassinatos e roubos perduram. O seu patrocínio é diretamente responsável por essa miséria — declarou Therese Kayikwamba Wagner, ministra de Relações Exteriores da República Democrática do Congo, em carta enviada ao Arsenal e também endereçada ao Paris Saint-Germain e Bayern de Munique, outros dois clubes patrocinados por Ruanda.

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Há relatos de estupros, assassinatos, pessoas queimadas vivas, saques e tiroteios. A ONU classificou a violência por lá como “verdadeiramente inimaginável'.

O cenário catastrófico em Goma gerou protestos de congoleses diante de várias embaixadas na capital do país, Kinshasa, como da Bélgica, França, Estados Unidos e Brasil . As manifestações são para que a comunidade internacional tome alguma medida contra Ruanda.

O Conselho de Segurança da ONU pediu o fim da ofensiva do M23, e o grupo rebelde declarou cessar-fogo há uma semana. Em comunicado, o M23 disse que tomou a decisão por "por razões humanitárias".

O general brasileiro Ulisses Mesquita Gomes foi nomeado pela ONU para comandar as tropas da missão que visa estabilizar a situação na República Democrática do Congo. Ele viajou para a África no último sábado. Essa guerra já matou 17 integrantes da missão de paz da ONU.

Os interesses de Ruanda na RDC

A República Democrática do Congo é o segundo maior país da África (atrás da Argélia) e o 11º em todo o mundo, com área de 2.345.409 km². A população é de cerca de 100 milhões de habitantes (o Brasil tem 212 milhões). A região leste da RDC é rica em recursos naturais.

Trata-se do maior produtor mundial de tântalo e cobalto, metais usados na fabricação de computadores, celulares smartphones e carros elétricos . A RDC também é rica em coltan, estanho e ouro.

A República Democrática do Congo se tornou independente da Bélgica em 1960 e, apesar de toda essa riqueza, é considerado um dos países mais pobres do mundo — o quarto, segundo a Global Finance. A RDC sofreu com décadas de ditaduras, instabilidade política e violência.

Ruanda faz fronteira com o leste da RDC e, de acordo com representantes da ONU, teria até 4 mil militares dentro do país vizinho , querendo lucrar com essa riqueza mineral. São três décadas de conflitos na região.

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— Ruanda tem um governo muito eficiente, com poder militar para interferir num vizinho muito maior e que tem um Estado muito desorganizado. Essas incursões militares talvez tenham matado mais de cinco milhões de pessoas, sobretudo de fome. É um dos piores conflitos que temos desde a Segunda Guerra — explicou Maurício Santoro, cientista político, professor de Relações Internacionais e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha.

A guerra também tem um componente étnico: criado em 2012, o M23 é um grupo rebelde liderado por tutsis. Eles acusam o governo da República Democrática do Congo de não integrá-los à administração do país, além de abrigar milícias hutus.

E foram os tutsis, com a Frente Patriótica Ruandesa liderada por Paul Kagame, que encerraram o genocídio dos hutus contra outros grupos étnicos na Guerra Civil de Ruanda de 1994. Cerca de 800 mil pessoas morreram em 100 dias. Paul Kagame é o presidente de Ruanda desde então, e o governo de lá argumenta que o M23 protege os tutsis na RDC.

— É uma relação bastante complexa entre os países. Quando os europeus desenharam essas fronteiras modernas da África, eles ignoraram o que era de fato a distribuição dos vários povos, grupos étnicos. Em Ruanda e no Congo os tutsis e os hutus são historicamente adversários. O hutus mataram praticamente metade dos tutsis em Ruanda. É um enorme desafio reconstruir o país e unir os grupos. A guerra étnica atravessou fronteiras e virou uma disputa por recursos naturais — comentou Maurício Santoro.

Ruanda colabora com o M23 em logística, armamento, treinamento e soldados.

Retorno do patrocínio em xeque

O patrocínio de 10 milhões de libras pode parecer muito, mas na realidade é pouco dentro dos quase 600 mihões de libras (R$ 4,3 bilhões) que o Arsenal fatura por ano . Isso gera ainda mais questionamentos sobre o retorno do "Visita Rwanda" para a marca do clube.

O Reino Unido financia anualmente 32 milhões de libras, ou cerca de R$ 229,9 milhões, em ajuda ao governo de Ruanda. O montante destinado ao Arsenal é o equivalente a 31% disso. O patrocínio de um dos países mais pobres do mundo, com um governo cada vez mais autoritário , a um dos clubes mais ricos da Inglaterra é outro ponto de crítica.

— O esporte é uma plataforma com potencial absurdo. Porém, em alguns casos é usado como sportswashing, quando por exemplo uma ditadura patrocina um clube ou uma competição para mudar a percepção do mundo sobre ela. Esse é um caso de sportswashing , em que Ruanda usa essa associação com o Arsenal para suavizar a sua imagem. Você recebe um bom dinheiro, mas o está aceitando com qual finalidade? — comentou Fábio Wolff, especialista em marketing esportivo.

Presidente de Ruanda, Paul Kagame é torcedor declarado do Arsenal. Ele comemorou recentemente no X (antigo Twitter) a vitória de goleada por 5 a 1 sobre o Manchester City, no Campeonato Inglês.

— O Arsenal não pode escolher seus torcedores, mas pode escolher seus parceiros comerciais, e a decisão do clube de promover Ruanda ficou impossível de se justificar. Há nenhuma dúvida de que esse acordo virou uma mancha no nome do clube — comentou o repórter Sam Dean, do jornal britânico "The Telegraph".

O Arsenal está em segundo lugar na tabela de classificação da Premier League, com 50 pontos, seis a menos do que o Liverpool. Na Champions, o time inglês se garantiu diretamente nas oitavas de final. Seu próximo compromisso na temporada é no sábado, contra o Leicester.

A reportagem do ge entrou em contato com o Arsenal, via assessoria de imprensa, e o clube informou que não faria comentários sobre o assunto. Segundo o site "SportsPro", o Arsenal não pretende encerrar o contrato de patrocínio com o governo de Ruanda.



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