Saúde
Mesmo aposentada, Lurdinha seguiu na enfermagem, foi missionária e mãe, porém perdeu luta para Covid
Profissional se dedicou cerca de 40 anos e recebeu inúmeras homenagens, inclusive de pessoas da África (veja vídeo abaixo). Ela lutou contra a doença por cerca de 2 semanas e faleceu após parada cardíaca em MS.
| G1 / GRAZIELA REZENDE, G1 MS
Apaixonada pela enfermagem, Maria de Lourdes Martins da Silva, de 72 anos, trabalhou até o momento em que um colega a pediu para voltar pra casa, pois, "estava abatida e muito fraca". Em seguida, foi o diagnóstico da Covid quem a fez retornar ao ambiente hospitalar, porém, desta vez como paciente. Após 10 dias de luta, no entanto, ela faleceu e recebeu inúmeras homenagens.
Segundo a filha, a professora Luciene Martins, de 39 anos, foram 40 anos atuando como técnica de enfermagem e, mais recentemente, instrumentador cirúrgico. "Ela trabalhava para cerca de 5 médicos e os acompanhava, no setor de ortopedia da Santa Casa. Foi profissional, missionária e mãe. Foi batalhadora, merece todas as homenagens. Por enquanto, estou sem rumo, mas, estou viva e vou arrumar um jeito de seguir", disse, emocionada.
Conforme Luciene, mesmo aposentada, a mãe quis continuar trabalhando. "Ela amava demais o que ela fazia, era muito amor mesmo. E também trabalhava para o sustento da casa e, mesmo guerreira, estava sempre sorrindo. Isso foi o que muitos colegas vieram me falar sobre ela, essa questão de ser parceira, de ter uma grande coração e transformar o ambiente, incansável mesmo", comentou.
Maria de Lourdes, mais conhecida como Lurdinha, percebeu os sintomas há cerca de 2 semanas. "Ela comentou na segunda que estava parecendo iniciar uma gripe e isso foi piorando ao longo da semana. Na quarta tomou medicação, na quinta retornou para casa e, no sábado, fizemos o teste em um local particular. Na quinta, ela começou a tossir e fomos a UPA [Unidade de Pronto Atendimento] do bairro Leblon", explicou.
Na ocasião, no entanto, um médico teria dito a ela que "o pulmão estava limpo". No entanto, diante a piora no decorrer dos dias, Lurdinha retornou ao posto de saúde e, de lá, foi transferida para o Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HR-MS). "Ela não tinha comorbidades, só que sentiu enjoo ao fazer inalação, além da diarreia, vômito e a pressão alterada. Ao chegar no hospital, ela foi internada na ala azul e a intubação veio na outra semana. Foi a última vez que eu vi e falei com a minha mãe", relembrou.
No dia 14 de janeiro, os médicos e colegas de trabalho pediram a transferência dela para a Santa Casa. "Eles queriam acompanhar de perto a situação dela e foi a partir daí que eu comecei a receber boletins diários da situação dela. No início, falavam paciente grave pelo fato dela estar entubada, mas, estável em seguida. Só que no decorrer dos dias a mensagem dizia: paciente com alto risco de morte", falou.
Neste momento, Luciene fala que a preocupação ficou ainda maior e ela insistiu para conversar pessoalmente com os médicos. "Eu queria ver, saber o que estava acontecendo, é um desespero. Soube que ela teve uma infecção generalizada, pulmão inchou e houve piora, continuava em estado grave dia a dia. Eu fui parar no trauma e lá chorei muito, até que consegui conversar com uma médica de plantão", afirmou.
A profissional então passou o diagnóstico e disse que "estavam fazendo tudo o que era possível por ela". "Ao final descobriram uma hemorragia, só que o corpo estava muito debilitado para fazer uma nova tomografia. Fizeram logo depois e continuaram o tratamento, até que nesse sábado (23) ela faleceu devido a uma parada cardíaca. É uma doença muito injusta, ela não tinha comorbidades e depois teve tantos problema. Dói muito", lamentou.
O filho mais novo, Gelson Martins da Silva, de 36 anos, também escolheu a enfermagem como profissão e fala que a sua mãe sempre foi o maior exemplo de profissionalismo e dedicação.
"Sempre segui todos os passos da minha mãe. Ela foi sempre uma mãe extremamente carinhosa e dedicada aos filhos. Teve uma uma história de vida muito sofrida e até muito triste, mas mesmo assim enfrentou tudo sempre com um sorriso no rosto, com paz no coração. Eu me sinto dos maiores privilegiados, pois, herdei o amor pela enfermagem, os gostos e as escolhas na vida, tudo de forma muito natural", disse.
Atualmente, Gelson disse que mora em Recife (PE) e lá deve concluir a faculdade de medicina. "Este é mais um sonho que nós dividíamos e, infelizmente, não consegui dar o diploma de presente pra ela, é uma tristeza que levarei pra sempre. Perco uma pessoa incrível, mãe, minha referência de vida e minha melhor amiga", finalizou.
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