Policial
Caso Gisele: tenente-coronel nega feminicídio em depoimento
Laudos apontam inconsistências na versão de Geraldo Neto, que afirma que a soldado cometeu suicídio; Justiça decidirá se ele irá a júri popular
| ÚLTIMO SEGUNDO / NATHáLIA FONTESNATHáLIA FONTESFORMADA EM JORNALISMO PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA (UFJF), COM EXPERIêNCIA EM GESTãO DE REDES SOCIAIS E PRODUçãO DE REPORTAGENS. AO LONGO DA CARREIRA, COLABOROU COM VEíCULOS COMO TRIBUNA DE MINAS
O tenente-coronel Geraldo Neto, acusado de matar a esposa, a soldado da Polícia Militar Gisele Alves, afirmou que é inocente durante seu último interrogatório antes de a Justiça decidir se ele será levado a júri popular. Em depoimento que durou mais de oito horas, o oficial voltou a sustentar que a mulher cometeu suicídio.
Entretanto, laudos periciais e imagens das câmeras corporais dos policiais que atenderam à ocorrência contradizem pontos de sua narrativa, conforme reportagem exibida pelo Fantástico, da TV Globo, neste domingo (11).
“Eu não sou um assassino, tá? Eu tô há 202 dias preso injustamente, porque eu não cometi crime nenhum. Eu não matei a minha esposa. Ela que cometeu suicídio', declarou Neto durante a audiência.
Gisele Alves, de 32 anos, foi baleada na manhã de 18 de fevereiro, no apartamento onde vivia com o marido, em São Paulo. Segundo a perícia, o disparo partiu da arma do tenente-coronel. Os dois estavam sozinhos no imóvel no momento do ocorrido.
Desde o primeiro atendimento policial, Geraldo Neto mantém a versão de que a esposa tirou a própria vida. Contudo, a investigação reuniu elementos que apontam para a hipótese de feminicídio.
A Polícia Técnico-Científica elaborou três laudos principais sobre o caso. Segundo a reportagem do Fantástico, todos descartaram a hipótese de suicídio. A conclusão mais recente aponta que seria impossível Gisele ter efetuado o disparo contra a própria cabeça nas circunstâncias analisadas.
Os peritos também identificaram quatro marcas de dedos no queixo da policial, indício considerado na reconstrução da dinâmica do crime. A hipótese pericial é de que Gisele tenha sido abordada por trás e imobilizada antes de ser atingida por um tiro à queima-roupa.
Além disso, foram encontrados vestígios de sangue no banheiro, em uma toalha e na bermuda do tenente-coronel. Esses elementos integram o conjunto de evidências analisado pelos investigadores.
Para o advogado José Miguel Júnior, que representa os interesses da vítima no processo, a versão apresentada pelo oficial não se sustenta diante das provas técnicas.
“Ela é uma versão que fere a perícia. A perícia é totalmente imparcial, fundamentada e contundente. Gisele não cometeu suicídio e sim foi vítima de um feminicídio', afirmou.
Durante o interrogatório, Geraldo Neto relatou que havia decidido terminar o relacionamento com Gisele naquela manhã. Em seguida, disse que foi tomar banho e ouviu um barulho forte.
Segundo sua versão, ao sair do banheiro, encontrou a esposa caída na sala. No entanto, a reprodução simulada do caso identificou uma inconsistência nesse relato relacionada à posição de uma árvore de Natal no apartamento.
Neto afirmou que a árvore havia sido desmontada e transferida para a cama. Ele também acusou as peritas de terem remontado o objeto para sustentar a investigação contra ele.
As imagens das câmeras corporais dos policiais que atenderam à ocorrência registraram a árvore intacta na sala. Um bombeiro que participou do socorro também relatou ter visto o objeto no local.
A testemunha afirmou ainda que não encontrou sinais de água no apartamento, apesar de Neto dizer que havia acabado de sair do banho.
As gravações policiais mostram também o momento em que o oficial decide tomar um segundo banho. Ao justificar a atitude, ele afirmou que, na primeira vez, apenas havia molhado o corpo e que precisava lavar a cabeça, fazer a barba e concluir a higiene.
Outro ponto que chamou a atenção durante o atendimento foi a posição da arma na mão esquerda de Gisele. Um bombeiro que entrou no apartamento fotografou a cena e relatou ter desconfiado da hipótese de suicídio.
A testemunha afirmou que a arma estava posicionada de maneira muito precisa na mão da vítima e apoiada sobre a coxa.
O relato foi considerado no conjunto de informações reunidas durante a investigação, que busca esclarecer como o disparo ocorreu.
A investigação também reuniu registros de discussões entre Gisele e Geraldo Neto. Em um áudio enviado 12 dias antes da morte, a soldado afirmou: “Ontem enfiou a mão na minha cara'.
Durante o depoimento, o tenente-coronel contestou a atribuição da mensagem e disse que a esposa tinha acesso ao celular dele.
Os investigadores também identificaram mensagens nas quais Gisele mencionava a intenção de se divorciar. Na audiência, Neto afirmou que queria a separação, embora tenha negado anteriormente que o relacionamento estivesse próximo do fim.
Durante o interrogatório, o oficial ainda relatou um episódio em que Gisele teria jogado um prato contra ele, causando um corte em seu braço. Ele usou o relato para argumentar que também teria sido vítima de violência no relacionamento.
Para o advogado José Miguel Júnior, essa narrativa tenta transferir à soldado a responsabilidade pelos conflitos e construir uma imagem favorável do acusado.
A defesa de Geraldo Neto pediu que ele responda ao processo em liberdade. Contudo, o tenente-coronel permanece preso preventivamente. O Ministério Público se posicionou contra a soltura, alegando que ele poderia utilizar sua influência para comprometer o andamento do julgamento.
Após o último interrogatório, caberá à Justiça decidir se o oficial será pronunciado, ou seja, se existem elementos suficientes para submetê-lo a julgamento pelo Tribunal do Júri.
A defesa afirmou, em nota, que confia na impronúncia, decisão que impediria o envio do caso a júri popular nesta fase do processo.
O caso ganhou repercussão nacional e reacendeu o debate sobre violência contra a mulher e feminicídio. Para José Miguel Júnior, a decisão judicial poderá ter impacto para além do processo.
“Eu acho que é um caso de repercussão emblemático e que diga para a sociedade um basta. A mulher não pode mais continuar sendo vítima de machismo e de feminicídio como está ocorrendo no nosso país', declarou o advogado.
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