Agronegócios
O que salva a soja quando a chuva falha pode estar no solo
Em experimento em Dourados, áreas com melhor manejo alcançaram desempenho superior ao longo de 28 safras
| JOSé CâNDIDO / CAMPO GRANDE NEWS
Quando a chuva falha em plena safra, a diferença entre colher soja e perder parte da produção pode estar debaixo dos pés. Uma pesquisa da Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados, acompanhou 28 safras e encontrou uma relação consistente entre a qualidade do manejo do solo e o desempenho da lavoura: a cada avanço na classificação adotada pelo estudo, a produtividade relativa aumentou, em média, 11,1 pontos percentuais.
O resultado vem de um experimento instalado há 30 anos. Os pesquisadores analisaram mais de 4,3 mil pontos georreferenciados, reunindo dados de produtividade, cobertura do solo e análises químicas. Com essas informações, classificaram as áreas em quatro níveis de manejo, do NM1, o mais baixo, ao NM4, o mais alto.
A produtividade relativa média passou de 44% no NM1 para 55,1% no NM2, 66,2% no NM3 e 77,2% no NM4. Esses percentuais são uma medida usada na pesquisa para comparar o desempenho das áreas; não representam sacas colhidas por hectare nem garantem o mesmo ganho em toda propriedade.
A comparação ajuda a explicar o efeito prático de técnicas já conhecidas no campo. No preparo convencional, com revolvimento frequente da terra e monocultivo da soja, o solo tende a ficar mais exposto. No plantio direto, com rotação de culturas, e na integração lavoura-pecuária, a cobertura vegetal e a diversidade de plantas favorecem a infiltração e o armazenamento de água.
“Solos bem manejados armazenam mais água, oferecem melhores condições ao desenvolvimento das raízes e tornam a cultura da soja mais resistente às oscilações climáticas', afirma o pesquisador Júlio Cesar Salton.
Em Mato Grosso do Sul, essa capacidade importa especialmente durante os veranicos: períodos sem chuva que interrompem a estação chuvosa. Segundo a Embrapa, a vantagem das áreas com melhor manejo apareceu com mais força nos anos de deficiência hídrica moderada. Nas secas extremas, a conservação reduziu prejuízos em alguns casos, mas não impediu perdas severas. Em áreas sob preparo convencional, houve situações de produção nula.
Para medir a qualidade do manejo, a metodologia considera seis indicadores, entre eles o tempo sem revolvimento da terra, a cobertura vegetal antes do plantio, as condições químicas do solo e a diversidade de cultivos nos três anos anteriores. Assim, o histórico da área entra na avaliação do risco da safra.
É essa a proposta do Zoneamento Agrícola de Risco Climático – Níveis de Manejo (ZarcNM). O zoneamento tradicional indica períodos de semeadura de menor risco com base em fatores como clima, tipo de solo e ciclo da cultivar. A nova metodologia acrescenta a forma como o produtor cuida da terra.
A mudança pode ter consequências além da lavoura. Uma avaliação mais precisa do risco pode subsidiar decisões sobre crédito e seguro rural, embora a pesquisa, por si só, não altere as regras desses instrumentos. O tema é relevante em um estado onde, segundo dados de 2022 do Ministério da Agricultura citados pela Embrapa, 80,5% dos sinistros registrados tiveram relação com a falta de água.
O estudo deixa uma conclusão para quem produz em uma região sujeita a estiagens: conservar o solo não faz chover. Mas pode determinar por quanto tempo a lavoura consegue resistir quando a chuva demora a voltar.
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