Esportes
Edinanci Silva repassa trajetória de pioneirismo, fome e preconceito: "Sempre me senti diferente"
Ex-judoca, que é uma mulher intersexo, notava ser "diferente" desde criança e admite que cogitou tirar a própria vida após sofrer ataques ao longo dos anos 90: "Você começa a querer fugir da dor"
| GLOBOESPORTE.COM / EDGAR ALENCAR E MARCELO BARONE
Uma equipe de reportagem composta por cinco pessoas. Duas câmeras de filmagem, máquina fotográfica, luzes, microfones e tripés. A imprensa - motivo de preocupação para Edinanci Silva no passado - não a intimida mais. Os tempos de aversão à exposição ficaram para trás. Coisas da maturidade. A ex-judoca paraibana - atualmente auxiliar-técnica da seleção paralímpica - completou 50 anos no dia 23 de agosto e, depois de anos fugindo dos holofotes, resolveu falar. Muito. Sobre tudo, sem ressalvas. Das questões de gênero à saúde mental, passando pela infância pobre, na cidade de Sousa, onde nasceu. Chorou ao citar a traumática morte de um irmão recém-nascido, enterrado de forma clandestina. Sorriu ao lembrar da medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007.
Consegue ser afável - mesmo apanhando da vida - e ao mesmo tempo firme como uma faixa-coral. Ao "Abre Aspas" do ge, ela revela que é admiradora do renomado arquiteto catalão Antoni Gaudí, apreciadora da cultura japonesa e fã do cinema brasileiro.
As lembranças da infância arrancaram lágrimas de Edinanci Silva. Enquanto enxugava os olhos, por trás dos óculos de grau, citava o traumático enterro do irmãozinho recém-nascido, enterrado clandestinamente no cemitério, pois não havia dinheiro para sepultá-lo de outra maneira.
+ Pioneiro do cancelamento, Fratus cita polêmicas e rivalidade com Cielo: "Eu era uma granada" + Xuxa cita mergulho na depressão, fobia de piscina e fuga no álcool: "Bebia todos os dias" + Larri Passos explica fama de pitbull do Guga e afirma que ATP protegia gringos: "Máfia"
Este viria a ser apenas um dos dramas vividos por Edinanci Silva. A ex-judoca é uma mulher intersexo. Ela nasceu com testículos internos - que produziam hormônios masculinos e foram retirados via cirurgia para que ela conseguisse obter a permissão para lutar nos Jogos Olímpicos. Havia um risco elevado de câncer no futuro, portanto, ela não hesitou. Devido à sua aparência, costumava ser confundida com um menino na juventude. Uma gafe comum. Às vezes era provocação, bullying, termo ainda novo no Brasil. E viria a conviver com julgamentos alheios também na vida adulta, acusada de levar vantagem por efeito da sua condição genética.
— Eu sempre me senti diferente. Pelos comentários, pela forma que as pessoas me tratavam. Eu já tinha ideia de que não era uma pessoa... a minha fisionomia, a forma de agir... não era comum.
Foi submetida a testes de feminilidade no esporte. Os exames - realizados com as atletas nuas - foram extintos em 1998. Dois anos antes, porém, Edinanci estreou na primeira de suas quatro Olimpíadas, em Atlanta, nos Estados Unidos. Os ataques pela suposta vantagem física, as acusações de usufruir desta condição genética, minaram sua saúde mental e fizeram a paraibana cogitar tirar a própria vida.
— A pressão psicológica era muito grande. As pessoas começam a repetir tanto o mesmo discurso que você começa a acreditar. E você começa a querer fugir da dor, daquele ambiente de crítica, de acusação. (...) Se você não tem um amparo, um amigo, alguém para poder te puxar para a realidade, você se perde. Você se perde primeiro nas drogas, em diversos contextos, até chegar a esse ponto, de você atentar contra a própria vida. É duro, é duro.
+ Giba conta bastidores da seleção e admite entregada em 2010: "Não vamos ser hipócritas" + Bruninho revela cobrança extrema de Bernardinho e exorciza Londres 2012: "Fundo do poço" + Tande chora ao lembrar infarto e se arrepende de treinos à la Romário: "Eu poderia ter sido maior" + Vanderlei Cordeiro chora ao citar infância na lavoura: "Minha mochila era um pacote de arroz"
Reclusa durante os últimos anos, discreta nas redes sociais e inacessível aos jornalistas, Edinanci surpreendeu recentemente. Aceitou transformar a sua vida em um livro aberto. Lançou neste mês a biografia "Edinanci Silva, Mulher Forte Sim Senhor", da editora Malê.
— Nordestina, negra, homossexual. É um combo muito grande. Quando você começa a analisar todo esse contexto, é difícil você levantar uma bandeira. Você está em vários contextos e entende todos. Não estou dizendo que sou uma pessoa especial, mas eu consigo entender as diversas realidades. (...) Em alguns momentos eu senti o preconceito, não só pela minha condição física e genética, mas também pela minha condição social e cultural. Por ser nordestina... infelizmente, é isso. Por ter um sotaque diferente, ser de uma cultura diferente, por ser negra. Muitas vezes eu senti esse outro lado do preconceito também.
+ Hortência revela conselho de Pelé e lembra volta às quadras após ser mãe: "Hoje seria cancelada" + Jackie Silva critica biquíni no pódio e relata brigas com Sandra: "Falei que não queria mais jogar" + Virna rejeita rótulo de seleção "amarelona" e defende Mari: "Foi um crime o que fizeram com ela"
Ficha técnica:
Nome: Edinanci Fernandes da SilvaNascimento: 23 de agosto de 1976, em Sousa (PB)Profissão atual: auxiliar-técnica da seleção brasileira paralímpica de judôParticipações em Olimpíadas: Atlanta 1996, Sydney 2000, Atenas 2004 e Pequim 2008 (primeira brasileira a disputar quatro edições)Principais títulos: Medalhista de bronze nos Campeonatos Mundiais de Judô em 1997 (Paris) e 2003 (Osaka), bicampeã dos Jogos Pan-Americanos em 2003 (Santo Domingo) e 2007 (Rio de Janeiro), bronze no Pan de Winnipeg 1999, Hall da Fama do Comitê Olímpico Brasileiro (2025)
Abre Aspas: Edinanci Silva
Vamos voltar no tempo para a cidade de Sousa. O que vem à cabeça?
— Eu vou para o bairro da Guanabara. É uma lembrança em que era só meu pai, minha mãe e eu. Lembro de ele me levar na garupa da bicicleta até o Bairro da Estação. Eu com vestidinho de bolinhas. Eu me lembro do momento em que a gente saiu de casa para ir para o (conjunto habitacional) André Gadelha. O local onde a gente vivia era muito simples. Houve uma chuva muito forte, a parede do cômodo onde a gente morava rachou, e o telhado começou a desabar. No André Gadelha era um espaço que ainda não tinha água encanada, nem eletricidade. Era um local bem ermo, bem afastado do centro.
Como foi a sua infância?
— Foi o momento que eu tive contato com a morte, com a perda de um irmão (Jeferson) recém-nascido. Muito forte. Foi muito traumático para mim. Você acaba criando um mecanismo de defesa, apagando da sua memória, mas durante as minhas entrevistas (para o livro), comecei a resgatar isso. Foi muito difícil porque você vai lembrando dos detalhes. Foi uma época marcante. Eu me lembro que minha mãe ficou com essa criancinha durante uma noite e um dia. Não havia condições financeiras para fazer o sepultamento. A gente teve que negociar com o coveiro para poder sepultar o recém-nascido. A negociação foi um rolo de fio, uma extensão, para poder levar essa criancinha dentro de uma caixa de sapato (choro). E foi levada para o cemitério de forma... Desculpa (choro). Foi levado de forma clandestina, no horário em que o cemitério já estava fechado, porque não poderia acessar no horário normal. É uma lembrança muito forte, que me emociona até hoje, me marcou muito.
De que forma essas lembranças te afetam até hoje?
— Durante muito tempo eu fiz reflexões. A gente acaba se questionando, principalmente do ponto de vista religioso. Se Deus existe, por que Ele permite que a gente passe por esse tipo de situação? A gente vai caindo na realidade, analisando o contexto da época. Havia um regime militar no país, as ações do governo federal estavam mais direcionadas aos grandes centros e capitais. As cidades do alto sertão e periféricas acabavam caindo no esquecimento. Falta de alimento, falta de condições básicas para você se desenvolver como ser humano. Eu fui uma criança negligenciada. "Por que entrou na escola com 10 anos de idade?" A política governamental da época acabava facilitando isso. "Por que passou fome e sede?". Era um contexto social em que estávamos largados, não tinha assistência social nenhuma. Uma vez, vi uma pessoa que estava visitando as pegadas de dinossauro, em Sousa, falar ao avistar a criançada descalça: "O sertanejo é resistente". Na hora eu pensei, assim, resistente de força. É resistente no sentido de viver na dificuldade e ser resistente para superá-las.
De que forma o judô surge na sua vida?
— Tive um tio que era apaixonado por caratê. Era aquele tio legal, forte. Nessa época as coisas estavam um pouco melhores, meu pai estava trabalhando como pintor, e a minha mãe lavava roupas. E puderam me proporcionar esse pequeno luxo, que era me dar um cruzeiro (nome da moeda brasileira na época), para eu assistir a um filme de kung fu no cinema. Quando comecei a estudar no colégio, eu passava em frente a uma academia de caratê e ficava olhando o aquecimento. A gente ficava sonhando, imaginando, mas eu não tinha condições, porque era pago. Depois que eu saí de Sousa e fui para Campina Grande surgiu a possibilidade de treinar judô no Sesc, aí eu abracei. Fui empurrada para o judô. O meu primeiro professor, que era faixa-marrom, na época, o Roberto Fialho, falou: "Vem treinar judô, é legal". Sempre fui muito apaixonada pela cultura oriental.
Você gostava de jogar futebol com os meninos, e eles não sabiam que havia uma menina ali. Quem era Gavião?
— Jesus do céu (risos). Era um alter-ego. É engraçado... Era o nome que eu utilizava para poder jogar futebol com a molecada no bairro Bodocongó (em Campina Grande). Naquelas briguinhas no campo, acabei unhando um dos meninos. E aí o pessoal ficava falando "cuidado com o Gavião". Com a minha aparência, meu jeito, e como não tinha meninas jogando futebol, eu me apresentava como Gavião. Jogava de igual para igual, e a molecada do bairro me disputava: "Gavião fica aqui com a gente (risos)". Um dia meu pai passou pelo campo de futebol e me viu jogando. E ele estava com um amigo dele, que falou: "Olha lá! Gavião joga demais, tem que jogar no Campinense (risos)". Meu pai cruzou os braços e ficou só olhando lá da beira do campo. Eu falei: "Nossa, vou tomar uma bronca quando chegar em casa (risos)".
Você já se sentia diferente nessa época?
— Ah, eu me sentia diferente desde sempre, desde a minha infância. Nordestina, do alto sertão... abraço só no final do ano. Eu te amo era uma vez ou outra.
— Eu sempre me senti diferente. Pelos comentários, pela forma que as pessoas me tratavam. Eu já tinha ideia de que não era uma pessoa... a minha fisionomia, a forma de agir... não era comum.
Como teve essa percepção?
— É como se você não se encaixasse em um padrão social. A gente vive numa sociedade que até hoje tem os padrões. Se você é mulher, usa rosa, vestido e brinca de boneca. Se você é homem, usa azul e brinca de bola. Eu não tinha isso. Da mesma forma que eu brincava de bola, eu brincava de boneca e, como qualquer criança, era feliz em qualquer ambiente. Mas a sociedade sempre me empurrou um padrão. "Não, você é menina, então você tem que usar vestido, saia, maquiagem. Não pode correr, nem brincar de bola, porque isso é coisa de menino". Isso é impactante. Você vive durante muito tempo sem entender o por quê.
Você diz que as pessoas te tratavam de uma maneira diferente. Você viveu situações que te marcaram nessa época, situações de vestiário e provocações na escola?
— Sempre, desde a minha infância, na sala de aula. Dentro da família, nem tanto. Foi uma coisa que eu consegui administrar na minha cabeça, sem pensar "eu tenho que ser dessa forma". Eu acabava desconsiderando muita coisa. Os abusos, as brincadeiras de mau gosto, que hoje a gente chama de bullying. Eu vivenciei isso desde sempre. Acho que isso me fortaleceu muito, me ajudou no esporte e no momento em que eu precisei dessa força. Se eu não tivesse vivenciado tudo isso, se eu não tivesse tido essa preparação, talvez eu não tivesse tido força para poder continuar.
Você se sentia vigiada no banheiro, colegas querendo te ver ou algo assim?
— Na infância, nem tanto. Na adolescência, sim. Quando você é adolescente, você quer ser revolucionário, ir contra todo mundo, defender suas ideias. Era um momento de, tipo, não precisa ficar me observando ou ficar fingindo que não tem interesse. Estou aqui. Se você quer me observar, pode ficar à vontade. Eu não tenho nada para esconder. Era esse sentimento.
Você tinha, nessa fase revolucionária, algum problema para se identificar?
— Eu nunca tive dificuldade nenhuma. Muitas vezes fui um pouco rude, ríspida, para poder me impor. Arrumei algumas confusões, mas eu nunca tive dificuldade nenhuma. Nunca tive nenhum tipo de dilema na minha cabeça.
Quando isso passa a ter um nome? Uma condição que, após muitos anos, as pessoas conheceram como intersexo?
— Foi a partir de 1995, quando vieram as primeiras críticas, os primeiros ataques. Foi uma fase que me preocupou muito, não pela minha condição genética ou física, mas pelo fato de as pessoas duvidarem do que eu estava falando. Foi um momento muito difícil.
Você estava às vésperas da sua primeira Olimpíada, em Atlanta 1996. Isso passou a ser um problema?
— Para mim, nem tanto. Passa a ser um problema para a Confederação (Brasileira de Judô, a CBJ) e até mesmo para a FIJ (Federação Internacional de Judô). Eu me via simplesmente como atleta, como uma pessoa querendo vencer. E não era vencer a medalha, era vencer na vida, estava agarrando a oportunidade com unhas e dentes. E eu não ia deixar passar. Eu não tive aquele processo normal que uma criança deveria ter, de viver em uma família com condições financeiras, de ter o básico para poder se desenvolver intelectualmente, escola, local para praticar esportes. Fui uma criança que se divertia com o que tinha, fazia bonequinho de barro, tomava banho de rio. Esse era o nosso playground. A oportunidade de pensar na vida e dizer "vou vencer, me tornar professora ou arquiteta" não existia na nossa realidade.
— O pouco de alimento que a gente tinha em nossas casas foi desviado dos bichos. Era a farinha de soja, que o governo militar da época destinava para as famílias nordestinas do alto sertão. A gente vivia com uma única refeição - quando tinha essa única refeição - para fazer o mingau de soja, cheio de gorgulho. Muitas vezes, recebia um grão com agrotóxico, e as famílias deixavam aquele grão de feijão de molho durante dois, três dias para poder consumir. Era o que a gente tinha. Essa era a mentalidade da Edinanci de 1995. Eu não podia me dar ao luxo de desistir.
Até 1998 havia o invasivo Teste de Feminilidade para poder competir nos Jogos Olímpicos. Você se sentiu desrespeitada em algum momento?
— Não, de forma alguma, em nenhum momento. Era a oportunidade que eu tinha de valorizar a minha dignidade, porque eu não estava ali para trapacear. Isso também fala muito de momentos que eu vivi na modalidade, que eram os exames antidoping. Em nenhum momento eu me recusei, muitas vezes, eu vibrava por dentro, porque era mais uma oportunidade de provar que eu não estava ali para trapacear. Eu não estava ali para ganhar uma medalha ou construir um resultado a qualquer custo.
Você lidou com naturalidade mesmo depois da cirurgia (retirou os testículos internos que produziam testosterona e aumentava sua chance de desenvolver câncer) ou se sentiu invadida diante da necessidade do teste para competir?
— Muita gente interpretou de forma errada, achavam que eu estava passando por um procedimento cirúrgico simplesmente para poder me adequar. Não, eu estava cuidando da minha saúde. Foi uma oportunidade que o judô me concedeu. Se eu não tivesse saído de Sousa naquela época, qual seria minha situação sob o ponto de vista da saúde? Quando começaram as investigações, as baterias de exames, psicólogos, os médicos chegaram à conclusão de que aquilo ali poderia virar uma coisa muito maior, que poderia me impedir de chegar aos meus 50 anos de idade, eu falei: "Essa é a hora". "Ah, você não vai poder competir da mesma forma". Não importava. O que importava era a minha saúde.
O seu caso ganhou visibilidade nas Olimpíadas de Atlanta. Nesta fase da cirurgia, da sua condição genética, você se sentiu acolhida, compreendida?
— Nem tanto. Eu sempre tive que me afirmar, me impor, no sentido do debate. Em alguns momentos eu senti o preconceito, não só pela minha condição física e genética, mas também pela minha condição social e cultural. Por ser nordestina... infelizmente, é isso.
— Por ter um sotaque diferente, ser de uma cultura diferente, por ser negra. Muitas vezes eu senti esse outro lado do preconceito também.
Você ainda carrega mágoas desse período?
— Não, não carrego mágoas, porque a gente amadurece. E nada melhor do que o tempo de estrada, o tempo de vida, para poder fazer bastante reflexão e entender que carregar mágoa não te leva a lugar nenhum. Mas, machuca, como qualquer ferimento, causa uma dor.
Em relação às adversárias, sentia que era especial para elas ganhar de você? Ou que elas ficavam com mais raiva quando perdiam para você?
— Acho que lá fora eu sentia muito isso, essa disputa, essa vontade de querer vencer. Eu não sentia tanto isso no Brasil. Nas competições aqui eu sobrava muito porque a entrega durante os treinamentos era muito intensa. O resultado acabava vindo de forma muito fácil, mas as características físicas da Edinanci eram muito mais gritantes, muito mais chocantes.
Você ganhou muitos títulos. Foi medalhista de ouro em duas edições do Pan, bronze em dois Campeonatos Mundiais. Como você enxerga essa trajetória?
— É uma trajetória de entrega, sem luxo, sem a intenção de buscar vitrine. Era um único objetivo: construir algo para mim e para a minha família. E, em segundo lugar, deixar um legado para a modalidade.
Como foi a conquista do ouro nos Jogos Pan-Americanos, em 2007, no Rio de Janeiro?
— Nossa, foi perfeito. Não pelo resultado em si, mas por tudo que foi vivenciado antes. A forma que o resultado foi construído, não só o meu, mas o das minhas companheiras e companheiros de equipe. Ver a torcida brasileira, em especial, os cariocas, que são viscerais.... Ver a torcida, não só gritando o nome da Edinanci, mas vibrando com os brasileiros em cada luta. Nossa, foi de encher os olhos. É algo que eu carrego muito claro na minha mente.
Acredita ter sido especial por ter sido acolhida? Estava representando a torcida, que te apoiava, no tatame.
— Foi um momento de pertencimento. As pessoas precisam disso, não é só o atleta. Elas precisam se sentir pertencentes a algo. Sempre fui uma pessoa muito Brasil, sabe? "Temos que meter a porrada nessas gringas, não quero saber de Japão. O judô foi inventado pelos japoneses, mas a gente luta melhor do que eles (risos)". Era uma estratégia psicológica para render bem nas lutas. Eu sempre tive essa gana de vencer, de carregar a nossa bandeira e colocar em um lugar mais alto, de ser desbravadora.
Como surgiu o ritual de descolorir o cabelo nas grandes competições?
— Em 1996, quando eu passava por todo aquele buchicho da imprensa... eu me sentia uma superstar, era paparazzo em todos os lugares. A judoca Tânia Ferreira me falou assim: "Você tem que mudar o seu visual, chegar lá arrasando na sua primeira luta". Estávamos em Macon (EUA), e a ideia era fazer umas tranças. Meu cabelo estava bem grande, mas a gente não conseguiu. E ela falou: "Tenho uns produtos aqui, vamos descolorir seu cabelo". Meus pais não me reconheceram (risos). Cadê a Edinanci? Estava com o cabelo amarelo. E acabou se tornando um ritual. Era uma forma de, psicologicamente, me preparar para a guerra. Eu chegava um dia antes da luta, pintava o cabelo, fazia aquele ritual me olhando no espelho: "Amanhã é o grande dia". Foi um momento bacana (risos), depois eu parei.
Você foi a primeira brasileira a disputar quatro Olimpíadas. Você se sentia mais pressionada do que um atleta normalmente se sente por tudo que envolvia sua carreira?
— Com certeza. Quando você busca construir algo ou fazer com excelência, você acaba se cobrando. Você se empurra, não relaxa. A medalha olímpica - inédita no feminino - não era só o meu objetivo, era o objetivo de outras atletas. Não estávamos tentando marcar o nome na história, a gente estava tentando romper essa barreira. Sabíamos que era uma barreira psicológica. Se alguém rompesse, com certeza, os resultados viriam de forma brilhante. E foi o que aconteceu. Eu sempre tive os pés no chão. Hoje (entendo), na época, nem tanto. Temos que entregar de acordo com aquilo que recebemos sob o ponto de vista da estrutura. A minha geração construiu muito resultado na base da garra, sabe? Muitos resultados não eram para vir, não existia apoio para o judô feminino, mas a gente construiu.
Você subiu ao pódio em todas as competições que disputou na carreira, exceto nos Jogos Olímpicos. A sua melhor colocação foi o quinto lugar em Pequim 2008. O que faltou para a conquista de, pelo menos, uma medalha de bronze?
— A medalha olímpica não aconteceu porque talvez a gente não tivesse essa referência. Pioneirismo é isso. A gente tem que desbravar, abrir caminhos. Muitas vezes a gente constrói coisas que a gente acaba não considerando tanto, mas que são resultados revolucionários, como a medalha de bronze da Danielle Zangrando no Campeonato Mundial (em 1995, no Japão). Ela desbravou, rompeu a barreira. Depois vieram os meus dois resultados (bronze nos Mundiais de 1997 e 2003). Várias atletas vinham tentando desbravar a medalha olímpica muito tempo antes da Edinanci. Tive o prazer, a satisfação, a honra, de presenciar a medalha. Não tem prêmio maior de que você estar ali no meio das duas gerações. A nova era, a da Ketleyn Quadros (primeira medalhista olímpica do judô feminino do Brasil) chegando... e outros nomes que engrandeceram ainda mais o judô feminino.
Essa medalha não ter vindo foi uma questão esportiva ou essa pressão, esse preconceito, atrapalharam o seu rendimento nas Olimpíadas?
— Atrapalharam, porque quando você quer tanto algo... Quando você assiste "O Senhor dos Anéis", você entende o "my precious". Quando você deseja aquilo, vira um veneno na sua vida também. Você começa a entrar numa paranoia, todo mundo começa a engrandecer aquilo, e você começa a tornar aquilo não mais um sonho, mas uma obsessão.
Obsessão para você ou para dar uma resposta?
— É a realização, não só para você como atleta, mas é para o teu sensei, para o preparador físico, para os seus companheiros de treino, para o patrocinador que acredita no que você pode construir. Você começa a se dedicar, a se focar e se fecha mais ainda, só que acaba atrapalhando, porque você leva a sua condição física a um ponto em que, psicologicamente, você acha que pode ir além, mas fisicamente, o teu joelho acaba não aguentando tanto, o quadril falha.
O quanto você tem noção que, ao falar sobre não se encaixar, sobre pertencimento, que é uma mensagem poderosa para quem está conhecendo a sua história agora?
— Nordestina, negra, homossexual. É um combo muito grande. Quando você começa a analisar todo esse contexto, é difícil você levantar uma bandeira. Você está em vários contextos e entende todos. Não estou dizendo que sou uma pessoa especial, mas eu consigo entender as diversas realidades.
Você passou grande parte da carreira e dos últimos anos fugindo das câmeras, das entrevistas. Hoje acredita ser importante falar?
— Eu sempre fugi da imprensa por tudo que vivenciei na década de 90, pela exposição e desinformação em cima do que vinha acontecendo comigo. Eu era uma pessoa muito ingênua, acreditava muito na bondade das pessoas. Então, conversar sobre o que eu pensava, sobre o que eu sentia, muitas vezes, era desvirtuado. A pessoa pinçava somente aquilo que interessava e passava pra frente. Acabava perdendo a confiança, me fechando, me blindando. Hoje, eu tenho mais facilidade para poder conversar com as pessoas, porque eu sinto que é um dever meu também informar sobre a minha condição genética, a minha condição social, porque é uma dor do outro. Eu consigo ter essa visão, antes eu não tinha. Por isso que eu me blindava tanto.
Como você acha que seria atualmente? Teria passado pelas mesmas coisas ou sofreria menos?
— A década de 90 era analógica. Você via a informação no jornal, na imprensa televisiva e nas rádios. Não existia rede social. A desinformação era muito grande e acabava causando um sofrimento maior. A necessidade de falar sobre o que realmente estava acontecendo comigo era muito grande. "Olha, eu estou aqui. Eu sou uma pessoa verdadeira. Não estou aqui fingindo ser algo para poder tirar proveito". Era uma época muito difícil. Hoje é muito complicado também. As redes sociais são ainda mais cruéis. As pessoas podem discutir sobre a sua vida, principalmente de uma pessoa pública, e emitir qualquer tipo de opinião. E mesmo que você vá para as redes sociais rebater, o estrago já foi feito. Hoje em dia, a gente vê as pessoas tirando a própria vida por conta desse tipo de impacto.
Nos anos 90, com tudo o que você estava enfrentando, cogitou chegar a este extremo?
— Com certeza, porque a pressão psicológica era muito grande. As pessoas começam a repetir tanto o mesmo discurso que você começa a acreditar. E começa a querer fugir da dor, daquele ambiente de crítica, de acusação. E, quando não tem o apoio, o suporte de amigos, as chances disso acontecer são gigantescas. Houve um momento morando na Casa do Atleta, em Guarulhos, que me passou isso pela cabeça. Você começa a se sentir fora daquele contexto social, a se sentir estranha, deslocada. É um momento muito duro, difícil. Você lembra de tudo que viveu até chegar ali, de tudo que aconteceu com você.
— Você se pergunta: "Caramba, mas isso é a vida?". Você começa a questionar: "Se Deus existe, se existe uma força maior que cuida da gente, por que Ele está permitindo que isso aconteça? Eu sou uma pessoa honesta, não desejo mal, quero fazer a minha caminhada e estou envolvida em tudo isso, com as pessoas me acusando". Se você não tem um amparo, um amigo, alguém para poder te puxar para a realidade, você se perde. Você se perde primeiro nas drogas, em diversos contextos, até chegar a esse ponto, de você atentar contra a própria vida. É duro, é duro.
A saúde mental no esporte é um tema recorrente, mas naquela época a realidade era outra, né?
— Os atletas não tinham esse acompanhamento, profissionais que cuidassem da parte mental. Não é "vamos pensar positivo para entrar bem para a luta, sonhar com a medalha". Não é isso. O profissional muitas vezes está ali para poder te trazer de volta para a realidade. Por que você está lutando? Para quem você está lutando? Por que você está treinando? É só pelo pódio ou está querendo diminuir uma dor, uma frustração? O profissional da área existe para isso. Por que você está se cobrando tanto? A minha geração não teve suporte. Então, as chances de você atentar contra a própria vida... não só por frustração dentro do esporte, mas, às vezes, por frustração do dia a dia.
— O professor Ricardo Sampaio sempre me fez refletir sobre isso, acho que me segurou um pouco. Quando vem um professor que te acolhe e pergunta se está tudo bem e oferece um abraço. Às vezes é o que está faltando e você acaba renascendo, ressurgindo. É um respiro para poder voltar à calma, à realidade e ter força para poder bater de frente com aquelas pessoas que não acreditam em você. Muitas vezes é isso que você precisa.
Você completou 50 anos de idade. O que representa essa idade para você?
— Ah, representa muita coisa, né? Superação. Eu nunca imaginava chegar até esse ponto, ainda mais vindo de onde eu vim. Acho que eu construí uma bela história. É um momento de muita reflexão, foi uma estrada muito longa. Cinquenta anos não é todo dia (risos). Quando chego nessas datas... Quando eu completei 20 anos de idade, eu também fiz a mesma reflexão. Nos meus 30, refleti sobre o que eu tinha construído no esporte e na vida pessoal. Cinquenta anos é um momento de desacelerar, puxar o ar, respirar e fazer uma nova reflexão.
— É uma data muito especial. A reflexão é muito mais profunda do que as outras, porque você sabe que viveu mais do que vai construir daqui para frente. Muita gente que vive neste meio das artes marciais vai entender o que eu estou falando. É o momento que você realmente se torna mestre, kodansha (judoca do sexto ao décimo dan). Você vai filosofar muito, porque você viveu muito, vai dar conselhos. A maturidade é muito maior.
O que representou a decisão de expor a sua vida através da biografia "Edinanci Silva, Mulher Forte Sim Senhor"?
— Eu nunca tive coragem de fazer isso. Quando você resolve participar de uma biografia, você tem que resgatar muita coisa do que vivenciou no passado. É enfiar o dedo na cicatriz e, muitas vezes, provocar aquela dor que você viveu lá no passado. Isso é muito duro. Veio o convite da Helena (Rebello, autora do livro), conversamos bastante. Foi muito especial, não só participar deste trabalho, mas também resgatar tudo que passei, resgatar a minha identidade. Chega num ponto da nossa vida que esquecemos tudo que superamos. A gente acaba se desvalorizando um pouco. Eu abracei esse trabalho por conta disso. Foi duro ter vivido, acho que não tenho coragem de ler, não.
Nas Olimpíadas de Paris, em 2024, a argelina Imane Khelif, do boxe, teve a sua feminilidade questionada durante a competição. Uma adversária, a italiana Angela Carini, abandonou uma luta contra ela. Como você enxerga uma atleta passando por isso no cenário atual?
— Eu vejo com um pouco de tristeza. Há tanta informação, tantos meios de buscar conhecimento, mas as pessoas preferem atacar, sentem necessidade de atacar a pessoa, muitas vezes motivada pelo sentimento de competição. Quer destruir o outro a qualquer custo, seja psicologicamente, ou para que a sua compatriota se torne a vencedora. Eu fico triste, porque eu percebo isso. Durante esses debates que surgiram sobre essa boxeadora, eu vi uma atleta que eu lutei nos Jogos Olímpicos - e que me venceu - fazer o mesmo tipo de comentário.
— Eu passei pelo mesmo tipo de situação, pensei: "Caramba, eu lutei contra essa atleta, só faltou ela arrancar a minha cabeça, saí com os braços travados de tanto esforço, ela me superou e está falando que a Edinanci Silva é privilegiada pela condição genética? Caramba, o que é isso?". As pessoas também me perguntavam: "Você não se freava por ter medo da visibilidade?". Nunca, eu nunca me permiti isso. Eu sempre treinei em alto desempenho, em alta performance, para buscar o melhor resultado e pela visibilidade da minha modalidade.
O que significou entrar no Hall da Fama do Comitê Olímpico do Brasil, em 2025?
— Ah, eu nunca esperava por isso. Na minha cabeça era um lugar só para medalhista (olímpico), né? Para quem tem a redonda no pescoço, na gíria do judô. Quando eu recebi a notícia, pensei que era trote, uma pegadinha (risos). Quando você para de refletir sobre o que você fez e construiu, você começa a olhar muito para o lado e começa a se desvalorizar. Em que sentido? Você começa a desvalorizar o que você construiu, começa a tornar aquilo pequenininho. Quando veio essa notícia e me falaram os nomes dos atletas que estariam lá... "Pô, caramba! Quem sou eu nesse barquinho, né?". E eu refleti: "Se estou aqui é por que alguma coisa eu fiz". Você vai olhando para trás e vê que tudo aquilo foi pioneirismo. Tudo que estávamos construindo naquela geração era inédito.
O que você gosta de fazer no seu tempo livre?
— Eu sempre fui apaixonada por cinema, principalmente, o brasileiro. Nunca fui de festa, de sair para balada. Depois das competições, eu ficava no hotel assistindo televisão. Quando era um país muito exótico sob o meu ponto de vista, um lugar que eu tinha ouvido falar na infância, eu saía para olhar as pessoas, ficava sentada na praça vendo como era. Foi assim no Japão, em Belarus e na Bulgária. Meu hobby sempre foi conhecer e provar de tudo da culinária local. Grilo, escorpião, peixe cru, sempre fui muito curiosa. E sempre tive pessoas que me motivaram a ser assim, como meu tio Chicute, a primeira pessoa de quem ouvi falar sobre Gaudí. Uma vez a Rosicleia (Campos, ex-técnica da seleção) me levou para ver a arte dele, e eu falei: "É igual ao chão da sala do meio tio, tudo feito de caquinho (risos)". Sempre gostei de passeios direcionados à cultura local.
Qual é o seu grande sonho?
— Eu não tenho um grande sonho. Dentro da modalidade era subir no pódio olímpico. Em 2008, quando perdi, fiquei bem frustrada. Fiquei martelando isso na cabeça durante um mês até chegar à conclusão de que o que eu tinha de estrutura me permitiu chegar até a disputa da medalha. Muitos sonhos foram realizados dentro e fora do esporte. Minha mãe tem a casinha própria dela, por mais simples que seja. Conseguimos ajudá-la a ter esse tipo de coisa básica que todo brasileiro deveria ter.
O que planeja para os próximos anos?
— Acho que não adianta fazer planos, o mundo capota. Quando eu entrei no judô, eu tinha vários planos, muitos não se realizaram, mas muita coisa que eu não tinha planejado acabou se realizando. Uma dessas coisas foi trabalhar em um projeto social dentro de Heliópolis, ficar em contato com a comunidade, trabalhar com a seleção paralímpica de judô. Foram coisas que eu nunca planejei ou tive como meta principal. A única coisa que eu quero, aos 50 anos de idade, é continuar me dedicando, motivando as pessoas que têm contato comigo no judô e fazendo a minha parte como cidadã, orientando: "Isso não está certo, vamos construir assim, se dedique aos estudos". Eu pretendo continuar nessa pegada.
Clique aqui e confira as últimas notícias de Itaporã!
Siga o Itaporã News no Youtube!
Grupo do WhatsApp do Itaporã News Aberto!
WhatsApp. VIP do Itaporã News clicando aqui!"
WhatsApp do Itaporã News, notícias policiais!
"Ao vivo a programação da Alternativa FM de Itaporã."

















