Thaila Ayala conta como está reconstruindo a relação com a mãe: ‘Liguei e pedi que ela me perdoasse’

Em entrevista a Marie Claire, Thaila Ayala conta como a escrita tem ajudado a atriz a fazer as pazes com o passado e as dores que ainda carrega


Thaila Ayala não tem medo de ser vilã: atriz se entrega de corpo e alma para antagonista da novela vertical 'Nas Profundezas do Amor' — Foto: André Nicolau
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Foi a analista de Thaila Ayala quem a aconselhou a dar um destino para suas dores. Ela recorreu à escrita, onde encontrou um lugar de expressão dos traumas e feridas que não cicatrizaram. É esse movimento que a faz se lançar como diretora e roteirista em seu novo momento de vida. Ao mesmo tempo, ela vive uma nova experiência como atriz na novela vertical Nas Profundezas do Amor, projeto no qual interpreta uma vilã desafiadora, que já ocupa um lugar especial na trajetória da artista.

“Desde sempre escrevo histórias, assim como meu filho, que começou a escrever aos 4 anos. Demorei muito tempo para entender que precisava contar o que vivi. Minha analista recomendou que eu escrevesse e, para mim, é realmente um processo terapêutico. Estou feliz e empolgada de estar fazendo isso', reflete em entrevista a Marie Claire.

O retorno à atuação veio com uma experiência desafiadora, já que ela gravou em dez dias a trama que, em folhetins tradicionais, seria desenvolvida ao longo de um ano. Apesar dos cuidados e exercícios para resguardar seu físico, ficou sem voz, devido à intensidade das cenas de sua personagem, a antagonista Zara.

“Era pesado sair de lá. Falava: ‘Graças a Deus, são só 10 dias’', entrega, enquanto, por outro lado, celebra a oportunidade de se aventurar em um novo formato.

Essa não é a única novidade que encara nos 40 anos recém-completados. Ayala está captando recursos para um curta-metragem que dirigiu e escreveu. Intitulado Tudo em Ordem, o filme conta a história de sua mãe, uma empregada doméstica que enfrentou todos os tipos de abuso ao longo de sua vida. O projeto é resultado de mais de 20 anos de análise e de um mergulho profundo no autoconhecimento, que permitiu a atriz ressignificar traumas familiares.

“Teve momentos que questionei e não entendi as escolhas dela. Já senti raiva, ranço e pena nas minhas sessões de análise. Mas a virada de chave veio quando consegui enxergar que as coisas que mais odiava em mim eram reflexos dela, e quando me tornei mãe e consegui enxergá-la para além da maternidade e das escolhas que ela fez', conta.

Você está estrelando a novela vertical Nas Profundezas do Amor, interpretando a vilã Zara. Como é estar de volta?

É maravilhoso, porque amo o meu trabalho e fiquei quase dois anos sem atuar entre a novela e o meu último longa. Para um ator, isso é um infinito. Trabalhar com novela vertical foi bem mais desafiador do que eu imaginava. Vi poucas produções e escolhi não assistir muito para ir no flow. Preferi ser conduzida pelo [diretor] Cristiano Marques, que já conheço o trabalho e o cuidado que tem com a gente. É tudo muito diferente, só na prática para saber. Tem dois minutos para acontecer todos os plots twist que existem em cada capítulo. Todo episódio tem que acontecer algo grandioso, então você já entra em cena lá em cima, porque não dá tempo de esquentar ou ter um arco dentro da própria cena para atingir a emoção. Estou muito ansiosa para assistir.

Você revelou ter ficado sem voz e que a novela vertical exigiu muito fisicamente. Que outros desafios encontrou nesse processo?

A Zara é alguns alguns tons acima, é uma vilã bem corporal e intensa. Por mais que eu esquentasse a voz, foram 10 dias muito intensos. Foi bem interessante, porque ela é muito cruel, não tem escrúpulos nenhum, passa por cima de tudo e de todos com uma ambição cega. Então, eu tinha cenas muito pesadas, saindo na porrada com alguém, batendo, empurrando, maltratando verbalmente etc

Este ano, você completa 20 anos de carreira. Quais as maiores realizações até aqui?

Cada trabalho traz coisas tão especiais, mas tive alguns momentos de realizações, como a minha primeira novela das 9, Caminho das Índias. Interpretar Miranda no espetáculo A Tempestade, de Shakespeare, em um teatro gigante, foi uma virada muito grande para mim. Cito também fazer o filme Pica-Pau, porque a carreira internacional nunca foi um projeto, mas acabou acontecendo

Você sempre menciona a sua origem, o fato da sua mãe ser trabalhadora doméstica. Como é sua relação com a sua história?

Por muitos anos, não conseguia me apropriar do que é meu. Olhava para a minha casa e não conseguia me sentir parte dela, achando que era algo distante. A primeira imagem que penso quando falo da minha carreira sou eu criança, crescendo em uma rua que não tinha asfalto, assistindo TV com três canais. Não entendo muito como tudo aconteceu e como vim parar aqui. Então é um trabalho diário de realização, de concretização, e de me apropriar do que é meu, da minha história, das minhas conquistas e da minha casa. Minha mãe limpava uma casa como a minha, enquanto a gente morava em um conjunto habitacional. Quis levar meus filhos para visitar a casa da avó deles para tentar passar esses valores. Tive que contar que provei meu primeiro morango aos 15 anos, porque na minha época, era um negócio de gente rica. Isso faz parte de quem eu sou e diariamente sou inundada por gratidão e, ao mesmo tempo, pela responsabilidade de passar esses ensinamentos para os meus filhos. Mas precisou de muita terapia e um trabalho de autoconhecimento para me apropriar do que é meu, de verdade.

Você costuma falar bastante sobre maternidade, seja nas redes ou no seu podcast, “Mil e Uma Tretas'. Como você e Renato [Goés] fazem para conciliar as carreiras e a criação dos filhos?

Emendamos uma gestação na outra, e a segunda não foi planejada. Foram quase três anos vivendo entre a gestação e o puerpério. Isso foi um choque, porque não existia ‘casal’ naquele momento. Existia pai e mãe – e também estávamos se construindo nesses papéis. Depois do puerpério, a vida começou a caminhar e aprendemos a tomar esse cuidado de fazer uma viagem por ano juntos, abrir um vinho e trocar ideia depois de colocar as crianças para dormir… o Renato é até mais cuidadoso e romântico com isso do que eu. Talvez porque, querendo ou não, a mãe acaba ficando com mais funções psíquicas. Ele não “me ajuda', mas sim atua a parentalidade dele e é super parceiro nisso. Assim, conseguimos ter esse equilíbrio.

Como é a parceria com ele?

Fizemos um filme juntos na pandemia, em que eu escrevi com o Paulo Fontenelle. O Renato correu atrás de produzir e gravamos dentro da nossa casa. Já trocávamos antes disso, mas esse mergulho de trabalharmos juntos em todas as partes do processo fez a gente trocar ainda mais. Trouxe referências budistas para o personagem dele em Quem Ama Cuida e conversamos por horas. Toda vez que tenho um personagem também falo com ele e peço opiniões.

Você disse que seus filhos, Francisco e Tereza, tinham uma relação difícil. Como está a relação deles agora?

Fora a gestação, o maior desafio da minha maternidade foi essa convivência entre os dois. Quando a Tereza nasceu, o Chico tinha um ano e quatro meses, era um bebê. E minha filha nasceu com uma cardiopatia, precisou de uma atenção extra, operar, o pai e a mãe tiveram que sair de casa para ir à São Paulo, e até hoje vemos reflexos dessa falta no Chico, que já vai completar cinco anos. Eu tentava dar total atenção a ele quando ia para casa, porque entendíamos que ele precisava de mais cuidado. Até os dois anos, ele realmente ignorava a existência da irmã. Quando o buscava na escola e dizia que tinha que esperar a irmã dele, ele respondia: ‘Eu não tenho irmã’. Hoje, um não vive sem o outro. A Tereza é muito mais apaixonada pelo Francisco do que o Francisco pela Tereza. Ele gosta de ficar sozinho, pintando, tem um outro tempo… e ela não vive sem o irmão, pentelha ele o dia inteiro [risos]. Agora, a briga que existe é uma coisa normal de irmãos. Graças a Deus, não existe mais essa coisa tensa e difícil que aconteceu durante um bom tempo.

Você também contou que não impede seu filho de brincar com maquiagem ou se vestir independente das normas de gênero. Que tipo de educação você acredita para construir um mundo melhor?

Fiquei chocada que isso foi um assunto, não acreditei. Mas quando soube que estava esperando um menino, levei um susto, porque cresci com um pai abusivo que batia na minha mãe, em mim e nas minhas irmãs. Chegou a arrancar sangue de uma delas. Ele traía a minha mãe com todas as pessoas do planeta e abandonou a gente para viver com outra família. Ao longo da minha vida, fui repetindo esse padrão, encontrando homens que me traíam e eram abusivos. Fui abusada quando criança pelo meu avô, entre outras pessoas, então tinha muito ódio de homem, ranço, pavor. Então, quando soube que meu filho era menino, sofri bastante. A minha preocupação é sempre ser exemplo. Também tento naturalizar o nosso corpo. Óbvio que eles ainda não têm idade para certos assuntos, mas se ele quer pegar o meu pincel para maquiar, ele pode pegar. Não temos essa coisa de “menino e menina', e realmente não acredito nessa educação. Meu filho sempre brincou com o que ele quis e a Tereza também. Eu cresci dessa forma, livre desses padrões. Joguei futsal por anos, vivia livre na rua, então acho isso tudo uma baboseira. Tento deixá-los livres para serem quem quiserem. Não tem a ver com serem meninos ou meninas, quero eles livres como seres humanos.

O relacionamento com o Renato te ajudou a enxergar de outra forma as possibilidades relacionadas à masculinidade?

O Renato chegou na minha vida em um momento muito importante, porque eu tinha me separado de um casamento em que fui traída e fiquei um tempo sozinha, recalculando tudo. Quando ele chegou, óbvio que me apaixonei, mas o que me trouxe para esse lugar em que estamos hoje foi justamente os valores de família que ele tem, como se relaciona com os pais e os irmãos. Ele vem de uma outra realidade e, quando me apresentou esse universo como um homem com outros princípios, me despertou a vontade de ter uma família. Foi ele que me trouxe essa segurança de querer construir algo, porque eu era um pouco destrutiva..

Você tem limites na exposição de sua intimidade com o público?

Não tenho um limite pensado e calculado. Sou muito orgânica nas minhas redes sociais e não tenho ninguém que cuide delas por mim. Já passei por algumas situações bem difíceis, porque não tínhamos as redes para nos explicarmos ou nos defendermos. A gente precisava procurar um jornalista que aceitasse dar a nossa resposta e, mesmo assim, não sabíamos como iriam contar essa história.

Quais foram os maiores desafios que você enfrentou nessa questão?

Teve uma vez que fui a um evento em São Paulo e parei para fazer fotos. Quando estava entrando, uma jornalista perguntou sobre a crise pela qual eu estava passando no meu relacionamento, porque tinha reatado depois de uma separação. Eu respondi: ‘Isso é notícia velha!’. Só que sou muito expressiva e estalei os dedos quando fiz isso. Um paparazzi tirou uma foto e vendeu como se eu tivesse dado o dedo do meio para a jornalista. Se dessem zoom, veriam que estava estalando os dedos. Eu saí para fumar um cigarro e vieram me mostrar a notícia. Falei que não tinha feito aquilo. Todos sabiam que não tinha acontecido. Foi uma loucura. Virou um trauma para mim, porque até hoje quem viu aquilo acha que eu fiz, porque eu não tive chance de resposta. Como já sou intensa e dramática, coube muito no personagem que criaram para mim. Eu ainda namorava uma pessoa que tinha atitudes questionáveis, então fizeram uma grande novelinha da minha vida. Foi muito doloroso e difícil

Você usa sua voz para defender bandeiras progressistas e, voltadas aos direitos das mulheres. Como foi o seu despertar para essas questões?

Minha mãe sofreu todos os tipos de abuso que você possa imaginar, na vida e no trabalho como empregada doméstica. Isso é uma pauta muito orgânica na minha vida. Trabalhei com moda quando a mulher era vista só como um cabide e também sofri muitos abusos. Acredito que não teve uma virada de chave, mas tive muitas oportunidades de aprender, ouvir, acolher e informar. Acho que o grande poder está na informação, porque se a gente tem informação, já temos muita coisa. A ignorância faz a gente perder muitos direitos. Tudo que vivi e vi as mulheres ao meu redor vivendo me faz defender essas bandeiras.

Você está no processo de captação de recursos para o seu curta-metragem. O projeto está caminhando?

Ele se chama Tudo em Ordem e conto a história da minha mãe e todos os abusos que ela sofreu, baseado em fatos, e tenho outros projetos em desenvolvimento que falam sobre a relação mãe e filha. Vou fazer uma viagem para a Itália com a minha mãe e é a primeira vez que passamos um bom tempo a sós desde que saí de casa, aos 15. Estou bem nervosa. Ela ainda é um grande mistério para mim, por mais que venha me visitar e ficar com os meus filhos. Comecei a escrever um livro sobre nós e essa viagem não é só para conhecê-la, mas também para terminar esse livro. Essa relação reflete na minha vida e em todas as escolhas que fiz pela por falta de intimidade com a minha mãe, o que reverberou e reverbera em todas as esferas da minha vida.

Como é olhar para essa relação com ela, hoje em dia?

Teve momentos que questionei e não entendi as escolhas dela. Já senti raiva, ranço e pena nas minhas sessões de análise. Mas a virada de chave veio quando consegui enxergar que as coisas que mais odiava em mim eram reflexos dela e quando me tornei mãe e consegui enxergá-la para além da maternidade e das escolhas que ela fez. Nunca tinha conseguido ver a minha mãe como mulher, mas ela é mulher antes de ser mãe. Como filha, não achei legal as escolhas que fez, mas talvez eu tivesse feito as mesmas, no lugar dela, porque ela não tinha tantas possibilidades. Mas pensar isso não apaga a falta dela na minha história e na minha vivência. Ela foi mãe com 17 anos. Um dia, liguei e pedi que me perdoasse por tê-la julgado e agradeci por tudo que fez por nós, criando sozinha, sem casa, base ou dinheiro, três mulheres fortes, fodas e de caráter. Mas que bom que consegui fazer isso em vida, porque quantas pessoas não conseguem?



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