Esportes
Pedro Emanuel cita Abel como referência e diz que Brasileirão é prioridade do Vasco: "Intervenção imediata"
Treinador português admite ser desconhecido por boa parte da torcida, pede voto de confiança, evita comentar chegada de reforços e revela que pai é vascaíno
| GLOBOESPORTE.COM / JOãO GUERRA
O técnico Pedro Emanuel foi apresentado pelo Vasco na tarde desta segunda-feira. O português, de 51 anos, deixou recentemente o Al-Fayha, da Arábia Saudita, e deve fazer sua estreia contra o Vitória, na próxima quinta-feira, pelo Brasileirão.
O treinador, que passou as últimas temporadas em clubes mais modestos do futebol árabe, admitiu que é desconhecido por muitas pessoas no Brasil, mas demonstrou confiança no trabalho.
— O desafio é grande. Nós temos uma intervenção que tem que ser imediata, porque, como é lógico, em dezoito rodadas o clube trocou duas vezes de treinador. As coisas não estão bem, mas isso faz parte do que foi a nossa preparação ao longo de vários anos.
— Compreendo também o ceticismo de vocês em relação à escolha do meu nome (...) Viemos para organizar, para sermos compactos, para transmitir a confiança que os jogadores neste momento necessitam, mais do que ninguém. Eles precisam disso no nosso processo de treino, no nosso processo de jogo.
Entre suas referências, Emanuel destacou os conterrâneos Mourinho, Jorge Jesus e André Villas-Boas e, principalmente, Abel Ferreira, técnico do Palmeiras. Assim como Emanuel, Abel chegou ao Brasil abaixo do radar, mas escreveu seu nome na história do Palmeiras com grandes títulos.
— O Abel, o Jorge Jesus são casos de sucesso (no Brasil). O Abel é um exemplo. Para mim não é problemático. Boa parte das pessoas não me conhece. Terei que trabalhar para ganhar meu espaço. Aqui é muito competitivo e só com trabalho vou ganhar confiança da torcida. Isso é a vida. A confiança não se pede, a confiança conquista. Quero conquistar os torcedores na base do trabalho e da essência do clube, que é a competitividade. Isso é o que nos faz grandes. Isso é um grande exemplo, sim, e parabéns a ele pelo trabalho fantástico.
O Vasco terminou a primeira parte da temporada com oscilações, mas continua vivo em em três frentes. Ocupa a zona de rebaixamento do Brasileirão, está classificado para as oitavas de final da Copa do Brasil e para os playoffs da Sul-Americana.
— Nesse momento, a tabela do Brasileirão nos diz muito. É prioridade voltar a pôr o Vasco no lugar onde merece. Temos que colocar o Brasileirão como merece. Não diria que a situação é delicada, são poucos pontos de diferença. A história do Vasco é de conquistas, e isso tem que fazer parte da nossa essência. O nosso desafio será esse. Quando entrei nesse CT senti a energia e a grandeza do clube. O que encontrei aqui é muito positivo. Esse é o alicerce para o que vem aí.
Na primeira metade da temporada, um dos problemas apresentados pelo Vasco foi a incapacidade de sustentar resultados positivos até o fim das partidas, o que tomou pontos importantes da equipe. O treinador prometeu uma postura diferente.
— Momentos em que possamos ter a bola e sermos nós a comandar o jogo com a bola. Momentos em que vamos ter que defender organizados, com rigor, com competência. E acima de tudo com agressividade, que tem que ser a nossa imagem principal, para que possamos ter esse sucesso que nós pretendemos naquilo que são os resultados. Chegando e olhando para a exigência de um Vasco e da torcida, queremos uma equipe competitiva e a disputar os jogos até o final. E é isso que nós vamos introduzir na nossa equipe.
Chegam junto ao técnico os auxiliares Rui Gomes e Pedro Correia, o preparador físico André Galbe e o analista de desempenho Gil Varajão.
As conversas com Pedro Emanuel se intensificaram na última semana, o negócio foi concluído rapidamente e o anúncio ocorreu na sexta-feira. O treinador estava sem clube, mas tinha propostas de outros times sauditas, mais vantajosas até financeiramente.
O projeto apresentado por Admar Lopes e a vontade do treinador em atuar no Brasil fizeram Pedro aceitar a proposta do Vasco. Ele não viu empecilhos na situação jurídica da SAF e está animado para o seu primeiro trabalho no futebol brasileiro.
Veja outras respostas do treinador:
Foco na temporada
— Nesse momento, a tabela do Brasileirão nos diz muito. É prioridade voltar a pôr o Vasco no lugar onde merece. Temos que colocar o Brasileirão como merece. Não diria que a situação é delicada, são poucos pontos de diferença. A história do Vasco é de conquistas, e isso tem que fazer parte da nossa essência. O nosso desafio será esse. Quando entrei nesse CT senti a energia e a grandeza do clube. O que encontrei aqui é muito positivo. Esse é o alicerce para o que vem aí.
Sistema defensivo do Vasco
— Converso com Admar todo dia (sobre reforços) e sobre muitas coisas. É importante avaliar o sistema que temos, adaptarmos às características do elenco que temos. Mais importante do que falar em nomes, temos que falar em equipe. Debatemos isso diariamente, não é muito tempo, mas o nosso foco é nos organizar como equipe para sermos mais competitivos. O fato de tomarmos gol em todos os jogos não é só sobre zagueiro, hoje todos defendem. Futebol é uma equipe, é o todo. Todos têm que dominar os mesmos princípios e os mesmos objetivos.
Questão psicológica
- Vou responder de forma sincera. Se sofremos gols no últimos minutos, de bola parada, de transição... Isso tem que ser alvo da minha intervenção mais forte. Estamos no Vasco, uma torcida enorme e exigente. Eu adoro isso. O jogador tem que sentir que estamos juntos e vai fazer parte do nosso processo. Temos que tornar São Januário para quem vem jogar e sentir essa pressão. Sentir que temos uma torcida que nos leva à vitória.
Processo de contratação
- Eu tive com o Admar e trocamos impressões, tivemos uma entrevista. E naturalmente o clube faz depois as suas escolhas. Demora mais um dia, mais uma semana. Eu acho que isso não é importante. Porque o fato é que eu gostei da abordagem. Acima de tudo, adorei. E posso confidenciar aqui: o meu pai é vascaíno e eu nem sabia, porque ele nunca me tinha confidenciado isso. E ficou orgulhoso desse momento, da notícia que eu lhe dei. Até as lágrimas lhe vieram aos olhos. Portanto, aí eu percebi qual é o tamanho e a dimensão que tem o Vasco. E por isso mesmo, acho que é bem claro para mim que aquilo que me foi apresentado foi algo aliciante. E algo aliciante que eu normalmente nem costumo fazer: assinei um ano e meio. O acordo que nós temos é de um ano e meio. E isso revela bem a confiança que o clube tem naquilo que nós podemos fazer em conjunto. Porque chegou um treinador novo, mas a estrutura está aqui. E juntos, só juntos conseguiremos conquistar algo.
Como é a postura do Pedro Emanuel nos jogos?
- Essa será uma boa surpresa para vocês (risos). Não gosto de falar muito sobre mim. Depende do momento do jogo. Há situações no futebol que por vezes reajo como torcedor porque reajo no emocional, tento não ser, mas reajo... Essa será uma boa surpresa para vocês lapidarem e terem uma opinião sobre mim. A postura do treinador é importante para a equipe.
O que pesou para aceitar vir ao Vasco mesmo com o ambiente conturbado com intervenção judicial?
- O que me levou a vir para cá é a confiança naquilo que ouvi. A conversa que tive com o Admar foi bem esclarecedora. A confiança que tive no que podemos construir como clube. É isso que me alimenta. Quem está do meu lado tem os mesmos objetivos que eu. Estamos em sintonia e vamos à luta.
Qual perfil de reforços?
- Este senhor que está aqui em frente (Admar Lopes) pode responder melhor. Quando falamos em fechar o acordo, falamos sobre o elenco atual. Olho para o elenco atual e vejo muito potencial para serem melhores. Há um subrendimento, é verdade, mas é nisso que trabalho. Todo o resto passa pela diretoria.
Relação com o Brasil
- Fui fazendo isso ao longo dos anos. Um dos elementos da minha equipe técnica trabalhou no Estoril e lá os donos são brasileiros. Desde então criamos ligação com o Brasil e virou um objetivo de carreira. Muito também em função dos trabalhos dos companheiros que vieram para cá. O futebol daqui é excelente, extraordinário, difícil e aliciante. Quem gosta de competitividade e exigência tem que treinar no futebol brasileiro. Minha preparação nos últimos três anos foi para isso.
Referências
- Não só do André (Villas-Boas). Eu felizmente fui tendo ao longo da minha carreira enquanto jogador, com os treinadores, passando por eles também de formas diferentes de trabalhar, e eles me fizeram campeão. E por isso, passando também pelo Mourinho enquanto jogador, bebi muito daquilo que foram as aprendizagens que tive com ele. E que me fizeram também olhar para a carreira de treinador como sendo uma opção válida na minha pós-carreira. Depois, o André Villas-Boas, que acrescentou também numa época de grande sucesso no Porto, levou-me para ideias mais claras. Ideias onde, isto que nós já estamos a falar aqui de uma forma muito resumida, mas que é o futebol atual: que é sermos alegres naquilo que é a nossa forma de jogar. E o alegre é não ter medo de ter a bola, assumirmos o jogo quando tivermos a bola. Mas no momento em que não a tivermos, temos que ter a capacidade de ajudar a nossa equipe, de reagir à perda de bola.
Diversidade de nacionalidades no elenco
- A minha experiência, até pelos últimos anos, é de um mercado onde tem muitos estrangeiros, das mais diversas nacionalidades. Já treinei grupos onde tinha treze, catorze nacionalidades. Acima de tudo, todos os jogadores perceberem que são iguais. E se há um clube que tem isso como identidade, é o Vasco, não é? Por isso, a igualdade e o nível de exigência que temos de ter vai ser exatamente igual para todos. Da mesma forma que a idade também. Não interessa se tem dezessete anos, como estávamos aqui a falar, se tem trinta e cinco, isso não é importante. É importante sim aquilo que nós esperamos e queremos dos nossos jogadores. Esperamos e queremos do comportamento deles. E é dessa forma que eu lido. Porque é exigente, mas nós podemos fazê-lo e nós queremos fazê-lo.
Falta de tempo para introduzir ideias
- Também é uma excelente pergunta e acho que é importante esclarecer. Eu, enquanto treinador, e todos nós aqui que gostamos de futebol, percebemos que para se formar uma boa equipe precisamos de algum tempo. Agora, o desafio foi exatamente esse quando eu debati isso com o Admar: de facto não temos tempo. E a partir de agora vai começar jogo para jogo, três, quatro, cinco dias, que é o normal. E de facto vai ter que ser de uma forma acelerada. Um dos aspectos que ajuda é a motivação com que os jogadores se apresentaram hoje no primeiro treino. Disponíveis, abertos, com vontade, com determinação. Essa é o primeiro passo para nós podermos introduzir as nossas ideias. Não temos muito tempo. Vamos ter que trabalhar muito em dois aspectos que são fundamentais: que são as imagens e depois os princípios. E isso só nos próximos jogos, como eu disse, precisamos mostrar aquilo que é o nosso trabalho. É um pouco em cima do joelho, mas tínhamos a noção disso e estamos preparados para isso. Vamos tentar preparar a equipe o mais rapidamente possível para isso, porque já temos jogo daqui a três dias.
Apresentação
— Sem dúvida tenho conhecimento do Campeonato Brasileiro pela qualidade dos jogadores e por ser uma das melhores competições do mundo. Falei com os treinadores que passaram no campeonato, são uma grande referência por serem uma história de sucesso. É isso que pretendemos como comissão técnica. É um desafio grande por ser um clube grande, mas não é só um clube grande no Brasil. Em Portugal, vários falaram comigo desde que a notícia surgiu. Nos preparamos bem para isso. Sei que sou um grande desconhecido para muitos de vocês, mas temos trabalho para vocês e quero que todos nos conheçam com o trabalho que vamos fazer.
Futebol brasileiro
- Aquilo que é olhar hoje para o Campeonato Brasileiro é muito diferente de olhar há dez anos atrás ou mesmo há cinco anos atrás. O Campeonato Brasileiro desenvolveu-se bastante, está muito mais respeitado em termos de Europa. E como é lógico, isso para mim é deficiente e é algo que eu tinha como objetivo. Quando surgiu o convite, não vou dizer o contrário, fiquei entusiasmado porque conheço a dimensão do Vasco e conheço aquilo que pretende para a minha carreira. Isto é uma gestão de carreira. Podia ter continuado a carreira noutros lugares, mas quando surgiu esta oportunidade não pensei duas vezes. Porque a confiança que me foi transmitida naquilo que era o trabalho que poderíamos fazer em conjunto foi tanta que eu não tive dúvidas. E acho que isso para mim é mais do que suficiente. Senti, como eu já referi, volto a referir: quando entrei no primeiro dia aqui no CT, uma energia tão boa, tão positiva e tão disponível. E isso para mim faz-me uma pessoa feliz. Mais feliz só quando ganhamos.
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