Análise: Portugal avança no sufoco e segue sem soluções com Roberto Martínez

Apesar de classificação para as oitavas, equipe tem mais uma atuação abaixo do esperado, com meio de campo pouco produtivo e defesa exposta

| GLOBOESPORTE.COM / JORGE NATAN


Roberto Martínez ainda busca soluções para a seleção portuguesa na Copa — Foto: Reuters
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Pode soar como exigência excessiva colocar um asterisco em uma classificação emocionante em pleno mata-mata de Copa do Mundo, com uma vitória ainda no tempo normal diante de um adversário experiente. Mas é inegável que na equação que leva em conta expectativa e realidade, a seleção portuguesa talvez tenha o saldo mais negativo no torneio até agora. Mesmo depois de bater a Croácia e avançar para as oitavas de final no sufoco.

Ao torcedor português cabe, claro, muita comemoração, ainda mais diante do drama vivido no segundo tempo em Toronto. Mas nos corações e mentes lusitanos também pode haver espaço para dúvidas e até mesmo temor: Portugal enfrentará a Espanha na próxima fase sem ter demonstrado grande evolução desde a decepcionante estreia com empate com a RD Congo. O técnico Roberto Martínez segue sem encontrar soluções em um elenco recheado de talentos.

Havia a expectativa de que a equipe mostrasse algum nível de crescimento depois de uma fase de grupos bem abaixo: o time empatou com o Congo, goleou o frágil Uzbequistão e por pouco, muito pouco, não foi derrotado pela Colômbia. Martínez pareceu dar ouvidos às críticas da imprensa portuguesa e buscou mudanças na equipe - mas parece estar longe de ajustar as engrenagens.

A principal delas, o meio de campo indicado por muitos como o melhor da Copa do Mundo, é a que parece mais emperrada. O trio com os campeões europeus Vitinha e João Neves e o craque da Premier League Bruno Fernandes não está se encontrando. Pelo contrário: está confuso em um sistema que não ataca com criatividade e não defende com efetividade. Há muita lentidão, pouca produção e muito espaço para melhora.

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Bruno Fernandes junto a CR7

Portugal foi a campo com duas mudanças com relação ao empate em 0 a 0 com a Colômbia: João Neves voltou ao meio de campo, no lugar de Rúben Neves, e Rafael Leão ganhou a vaga de João Félix na ponta esquerda. O desenho tático era o mesmo das outras partidas: um 4-3-3, ou 4-3-2-1, com Cristiano Ronaldo como homem mais à frente. Mas foi possível notar uma mudança importante na função de um dos principais jogadores: Bruno Fernandes.

No primeiro tempo, o camisa 8 atuou quase como um segundo atacante ao lado de Cristiano Ronaldo, aparecendo constantemente na área para finalizar. Em alguns momentos, pareceu uma boa solução, com CR7 atraindo as atenções dos marcadores, e Bruno tendo mais liberdade. Boas chances foram criadas no início da partida. Porém, a ausência do astro do Manchester United na criação deixou o meio de campo ainda menos efetivo.

Aos poucos, foi possível perceber que havia um grande espaço entre a linha defensiva de Portugal, sempre muito alta, e a linha de atacantes. A Croácia, bem ajeitada taticamente, não teve dificuldade de fechar as linhas de passe e dificultar a produção ofensiva portuguesa. A equipe de Roberto Martínez teve mais a bola, mas ficava muito tempo trocando passes entre zagueiros, laterais e Vitinha, que sempre chegava para ajudar na saída.

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No ataque, Portugal ficava com quatro jogadores alinhados, sem ser acionados com perigo: Cristiano Ronaldo, Bruno Fernandes, Pedro Neto e Rafael Leão. Às vezes, Nuno Mendes avançava, e até cinco atletas formavam a linha ofensiva. Porém, era em vão: a bola não conseguia sair da defesa para chegar nos atacantes por conta do meio de campo inoperante.

Assim, as jogadas mais constantes dos portugueses consistiam em trocar alguns passes, não achar espaços e abrir a jogada com um dos pontas. Sem soluções, geralmente tudo acabava em cruzamentos - alguns mais efetivos, outros menos. Jogadas de associações, tabelas ou outras construções foram raras no primeiro tempo.

Desvantagem e substituições por atacado

A etapa inicial quase sonolenta deu lugar a um segundo tempo repleto de emoção. Mas que também destacou outros problemas de Portugal. A defesa exposta, por exemplo. Em diversos momentos, a Croácia conseguiu chegar em situações de um contra um trocando poucos passes. Rúben Dias e Renato Veiga tiveram enorme trabalho - e principalmente o goleiro Diogo Costa, que chegou a fazer cinco defesas no jogo, algumas muito decisivas.

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A Croácia abriu o placar aos oito minutos em um jogada em que essa exposição ficou evidente. E chegou a balançar as redes com facilidade logo depois, em lance corretamente anulado por impedimento. Ainda houve um chute de Kovacic na trave. Roberto Martínez viu que a eliminação batia à porta e tomou uma medida que mais pareceu desespero: fez quatro substituições de uma vez e não hesitou em tirar de campo seu jogador com mais potencial criativo, Bruno Fernandes.

O camisa 8 saiu junto a Vitinha, em trocas que foram surpreendentes. Pedro Neto e João Cancelo também deixaram o campo. Entraram Bernardo Silva, Gonçalo Ramos, Semedo e Francisco Conceição. As substituições foram vistas com desconfiança por parte da torcida portuguesa, mas, antes que fosse possível fazer alguma avaliação mais concreta, uma sequência de fatos levou Portugal ao empate.

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Primeiro, Cristiano Ronaldo foi lançado e marcou um belo gol - que acabou anulado por um impedimento por poucos centímetros. Logo depois, um escanteio gerou o pênalti sofrido por Renato Veiga, que CR7 bateu com precisão. A carga emocional da partida diminuiu para os portugueses, e o jogo ficou muito mais aberto.

A Croácia voltou a ter chances, novamente com a linha de defesa muito exposta. Mas Portugal demonstrou ter ganho velocidade com as mudanças de Martínez. Era preciso ajeitar o meio de campo para não permitir que os croatas chegassem com tanta facilidade à linha de defesa. Rúben Neves, então, foi chamado para a troca mais surpreendente da noite: ele entrou no lugar de Cristiano Ronaldo a nove minutos do fim.

A escolha de Martínez poderia dividir opiniões, já que há quem pense que CR7 precisa estar em campo em momentos decisivos e quem ache que ele não pode atuar sempre por 90 minutos. O fato é que o craque saiu incomodado, mas o comandante acabou mostrando a famosa "estrela" com sua decisão. Gonçalo Ramos, o centroavante da vez diante da saída de Cristiano Ronaldo, marcou um gol de camisa 9 com uma bela cabeçada após cruzamento de Rafael Leão.

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Portugal ainda passou sufoco no fim e viu o gol croata aos 57 minutos ser anulado com a ajuda do VAR. Foi uma vitória na qual o time demonstrou virtudes que dele se espera, mas também exibiu brechas que a Espanha pode aproveitar tranquilamente. Será necessário evoluir em poucos dias para fazer frente à atual campeã europeia.

O técnico Roberto Martínez continua em busca de soluções para aproveitar o potencial da melhor geração da história de Portugal. E os craques que estão devendo também seguem procurando uma maneira de se entender melhor. A conferir se haverá tempo o suficiente ainda nesta Copa.



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