Esportes
Atacante explica admiração do povo do Haiti pela Seleção: "Trouxe felicidade para nós"
Frantzdy Pierrot deixou o país para jogar nos Estados Unidos e hoje tem fundação para atender crianças haitianas: "Quero ajudar não só no futebol, mas também na educação"; leia exclusiva
| GLOBOESPORTE.COM / EMANUELLE RIBEIRO
A seleção do Haiti estreou com derrota para a Escócia, no último sábado, mas o jogo que todo o país anseia vai acontecer nesta sexta-feira, às 21h30 (de Brasília), contra o Brasil. Existe uma relação de admiração entre o povo haitiano e o time brasileiro, que se fortaleceu ao longo do Século XXI e fez com que os caribenhos torcessem pela Seleção nas últimas Copas do Mundo.
Titular do Haiti, o atacante Frantzdy Pierrot cresceu aprendendo a admirar a seleção brasileira e reagiu euforicamente quando sua seleção caiu no Grupo C da Copa do Mundo de 2026, o mesmo do Brasil:
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— Eu fiquei muito feliz, porque no Haiti tem muita gente que torce pelo Brasil. Como havia tempo que não chegávamos nessa competição, quando eu vi o grupo, eu disse: "Agora as pessoas não vão apenas poder torcer pelo Haiti, mas também vamos jogar contra uma seleção que todo mundo admira, que todo mundo ama no país". E também vamos poder jogar contra alguns dos melhores jogadores — contou Frantzdy em entrevista exclusiva ao ge.
— Eu tive a oportunidade de jogar contra alguns dos jogadores do Brasil, como Danilo e Marquinhos. Eu sei que vai ser um ótimo jogo, vai ser uma grande competição. O país inteiro poderá assistir o seu país enfrentando outro país que você ama. Foi muito bom ver isso — completou ele.
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É a segunda vez que a seleção caribenha disputa a Copa do Mundo — a primeira foi em 1974. Será o primeiro confronto contra o Brasil em um Mundial, mas os times já se enfrentaram três vezes na história, todos com vitória brasileira: 1974 (4 a 0), 2004 (6 a 0) e 2016 (7 a 1).
O Jogo da Paz em 2004 é um dos capítulos que ajudaram a fortalecer a conexão Haiti-Brasil. Na ocasião, a capital Porto Príncipe recebeu amistoso que ajudou a divulgar uma missão de paz no país.
— Eu não tenho nenhuma lembrança pessoal desse jogo porque não tinha TV, nem eletricidade onde eu morava. Mas eu sei que foi um grande momento para o país, porque eles nunca tinham visto nenhum daqueles jogadores de perto. O fato de eles terem ido ao Haiti significou muito para o país. E essa é uma das razões pelas quais os haitianos sempre apoiam o seu país, mas também sempre vão demonstrar carinho pela seleção brasileira, por causa do que ela foi capaz de fazer, indo ao Haiti, sabendo que poderia haver algum risco ou qualquer que fosse a situação, mas mesmo assim aparecendo e tentando fazer as pessoas felizes — afirmou Frantzdy, que acrescentou:
— As pessoas do Haiti respiram futebol e conseguem se identificar muito com os brasileiros. Eles gostam de futebol, adoram dançar e também existem muitos jogadores de quem os haitianos gostam. Por exemplo, Ronaldinho era um daqueles jogadores que faziam as pessoas muito felizes quando jogava. Eu sinto que essa conexão existe por causa da felicidade que a seleção brasileira conseguiu trazer para nós. E agora nós estamos fazendo a mesma coisa como seleção do Haiti, quando as pessoas nos veem na rua, quando nos assistem jogar, dá para perceber que elas estão felizes.
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O jogador tem 34 gols em 52 jogos pelo Haiti. Nascido em Cabo Haitiano, Frantzdy Pierrot se mudou para os Estados Unidos ainda jovem para jogar futebol. Ele começou a carreira no Northeastern Huskies, time universitário, e passou pelo Reading United antes de sair do país.
O atacante defendeu RE Mouscron (Bélgica), Guingamp (França), Maccabi Haifa (Israel) e AEK (Grécia). Atualmente atua pelo Caykur Rizespor (Turquia).
Recentemente, o jogador criou a fundação "Frantzdy Pierrot" para oferecer suporte estruturado, educação e oportunidades a jovens jogadores de futebol no Haiti. O principal objetivo do projeto é servir como uma ponte, conectando talentos locais a clubes internacionais.
— Nascer no Haiti não foi fácil. Desde pequeno, jogando futebol, eu não tinha todas as coisas de que precisava. Eu não tinha chuteiras, não tinha bolas, eu tinha que improvisar, tinha que fazer minha própria bola. Eu jogava nas ruas, cacos de vidro entravam na minha perna, chutava pedras e tudo mais. Eu tive a oportunidade de ir para os Estados Unidos e pude mostrar do que sou capaz, mas muitas crianças no Haiti não têm essa oportunidade. A minha fundação existe para ajudar, não apenas dando visibilidade a essas crianças, mas também educando elas, tanto no futebol quanto na escola, porque a maioria dessas crianças não tem condições de frequentar a escola — explicou Frantzdy.
— A fundação vai ajudar na formação de treinadores e proporcionar essas crianças a chegarem ao próximo nível, indo para a Europa e tentando prepará-las para essa próxima etapa. É uma forma de criar mais oportunidades para essas crianças. Vamos criar torneios no Haiti onde olheiros e treinadores possam vir assistir a esses jovens. E também vamos fornecer muitas coisas que eles não têm, como camisas, materiais básicos, chuteiras, e o nosso objetivo é fazer com que essas crianças possam mostrar seu talento, jogar futebol profissionalmente e ajudar a seleção nacional a alcançar um nível ainda mais alto — declarou o atleta.
Frantzdy cresceu em Massachusetts e voltou para casa na estreia do Haiti na Copa do Mundo, em Boston. Familiares e amigos do jogador assistiram à derrota para a Escócia. Um mês antes da Copa, em maio, o atacante foi homenageado pela governadora do estado, Maura Healey, que declarou o "Dia de Frantzdy Pierrot" para celebrar as conquistas do haitiano.
Leia a entrevista completa com Frantzdy Pierrot:
ge: o que a classificação para a Copa significa para você e para o povo do Haiti?
Frantzdy: essa classificação significa muito para mim. O Haiti se classificou para uma Copa do Mundo há muito tempo, eu nem tinha nascido ainda e, quando as pessoas falam disso no Haiti, dá para ver que elas têm muito orgulho disso. Nós conseguirmos fazer isso de novo significa muito para todos nós. Se você visse a forma como as pessoas reagiram depois que a gente se classificou, foi uma loucura. Com tudo o que está acontecendo no país, as pessoas não saíam de casa há muito tempo, não tinha ninguém nas ruas, mas depois que a gente se classificou, todo mundo estava nas ruas, dançando, se abraçando. Foi quase como se o país inteiro tivesse parado e como se a vida tivesse voltado ao normal.
Você já assegurou um lugar na história do Haiti. O que mais sonha alcançar com a seleção? O que passa pela sua cabeça quando veste essa camisa?
— Que eu estou representando milhões de pessoas, que olham para nós como uma esperança, que dizem que nós estamos trazendo uma luz positiva para o país, e as pessoas têm mais respeito agora, não só pelo país, mas também pela qualidade dos jogadores que nós temos. Agora entendem que o Haiti tem talento e, com tudo o que está acontecendo no nosso país, nós conseguimos nos classificar sem sequer jogar uma única partida no nosso país. Isso é uma prova de quanto nós trabalhamos duro ao longo de todos esses anos e de que tudo é possível.
O que faz esse time do Haiti especial?
— É a irmandade e o fato de que nós sabemos que talvez não sejamos o time mais talentoso do grupo, mas nós jogamos uns pelos outros, jogamos pelas nossas famílias, jogamos por um país que está passando por muita coisa, e as pessoas estão gastando até o último centavo para poder pagar e assistir ao jogo. Quando o Haiti está jogando, todo mundo está reunido em algum lugar na frente da TV. Queremos ir o mais longe possível. Vamos encarar cada jogo passo a passo. Sabemos que temos alguns bons times, um dos maiores times desta competição no nosso grupo, que tem muita experiência nesta competição. Então vamos jogo a jogo.
Você citou o Neymar como um dos jogadores brasileiros que admira. Ele está se recuperando de lesão e não vai enfrentar o Haiti...
— Eu acho que o Neymar é um jogador de altíssimo nível, você sempre quer jogar contra os melhores. E eu acho que ele é um dos melhores. Eu tive a oportunidade de jogar contra ele na Champions League quando eu estava no Maccabi Haifa (Israel). Dá para ver a qualidade que ele traz para a equipe e o tipo de visão de jogo que ele tem. É sempre legal ver um jogador assim e a forma como o povo dele o acolhe. Mesmo com tudo o que um jogador pode passar na carreira, especialmente em relação a lesões, ele consegue continuar trabalhando e voltar ao seu nível. Ele está prestes a representar o país dele, assim como eu estou representando o meu país.
O que gostaria que os brasileiros soubessem sobre a seleção do Haiti?
— Acho que todo mundo sabe que jogar uma Copa do Mundo, não importa contra quem você esteja jogando, sempre vai ser um confronto difícil, porque qualquer coisa pode acontecer. Vai ser um grande jogo, vai ser uma disputa equilibrada entre nós. Eles vão dificultar as coisas para nós, e nós vamos dificultar as coisas para eles. As pessoas devem esperar que o Haiti mostre sua qualidade, mostre que somos capazes de continuar jogando nesta competição nos próximos anos e que merecemos estar nesta competição. Não estamos aqui apenas para participar, estamos aqui para competir, lutar e vencer jogos.
Você se mudou para os Estados Unidos muito jovem. Ainda mantém tradições do Haiti? Alguma delas vai estar com você nesta Copa?
— Com certeza vou comer uma comida nossa que é tipo um arroz preto que eu amo desde criança. A minha mãe ainda vive em Boston. Toda a minha família está lá. Então eu sei que eles certamente vão tentar me levar alguma comida. Eu ainda mantenho muitas coisas da minha cultura comigo porque isso ainda faz parte de quem eu sou. E também a minha mãe é muito tradicional, então ela me mantém na linha em relação a tudo. Estou muito animado. Joguei o primeiro jogo diante dos meus amigos, da minha família, de todos os treinadores, de todas as pessoas que tiveram algum tipo de impacto na minha vida. E eu estou muito feliz por ver todos os torcedores haitianos nos apoiando.
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