Debate sobre democracia no cinema latino-americano reflete tensões

Assunto é tema “não resolvido' na região, avaliam especialistas

| ISABELA VIEIRA - REPóRTER DA AGêNCIA BRASIL


© Busca Vida Filmes/Divulgação
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Na América Latina, o cinema permanece um importante espaço de debate sobre a democracia, a memória política e o legado do autoritarismo. O fato de o tema ser recorrente nas telas reflete tensões presentes na região, de acordo com especialistas em história e em cinema ouvidos pela Agência Brasil.

Pelo menos três produções com essa discussão concorrem ao Platino, a principal premiação do cinema ibero-americano. Os vencedores serão anunciados em 9 de maio, no México. 

Entre os concorrentes que discutem regimes autoritários e a democracia abertamente estão os longas-metragens brasileiros O Agente Secreto, do diretor pernambucano Kleber Mendonça, que disputa o troféu de melhor filme do ano, e o documentário Apocalipse nos Trópicos, da diretora Petra Costa. 

Além deles, a memória sobre a ditadura militar está no documentário paraguaio Sob as bandeiras, o Sol, de Juanjo Pereira.

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Democracia e direitos sociais

O Agente Secreto discute o apoio empresarial ao regime, a perseguição política e o apagamento da memória sobre a ditadura no Brasil, enquanto o documentário de Petra busca retrata a influência da religião evangélica nos rumos da política. Já o filme paraguaio recupera imagens raras para retratar a ditadura naquele país.

“Nossos países possuem populações privadas de direitos, como saúde, alimentação e moradia, e essas carências provocam insatisfações', analisou o professor de História da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Paulo Renato da Silva. 

Para ele, é na democracia, e não em regimes autoritários, que as demandas por direitos podem ser atendidas.

“É a democracia que permite você olhar para essas demandas [por direitos] e, como sociedade, buscar atendê-las', afirmou.

Os regimes autoritários, explicou, tendem a favorecer certos grupos políticos e econômicos, que cerceiam a liberdade de expressão e outras manifestações de opositores.

Paulo Renato é um dos maiores pesquisadores da ditadura no Paraguai, regime que contou com apoio do Brasil em articulações como a Operação Condor, citada no documentário paraguaio.

'Pauta não resolvida'

A professora de cinema da Universidade Federal Fluminense Marina Tedesco, estudiosa da cinematografia latino-americana, acrescenta que a fragilidade democrática na América Latina é “uma pauta não resolvida'.

“Ainda vemos presidentes e importantes atores políticos defendendo o regime militar ou afirmando que não foram graves', afirmou, tanto em relação à violação de direitos quanto aos casos de corrupção.

Ela lembrou que o presidente Alfredo Stroessner, do filme de Juanjo Pereira — líder de um regime corrupto e brutal que prendeu e torturou mais de 20 mil pessoas — foi reverenciado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

No cinema, segundo Tedesco, a democracia sempre esteve em pauta. Primeiro, clandestinamente, e, depois, no exílio, por pessoas perseguidas políticas.

“Pelo fato de a discussão incomodar, ainda vemos governos autoritários na América Latina atacando tanto o cinema ─ uma instância onde esses temas ainda são tratados', reforçou.

Em 2025, o filme Ainda Estou Aqui, que retrata a ditadura brasileira pela perspectiva da família do ex-deputado Rubens Paiva, foi o grande vencedor do Prêmio Platino. 



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