Policial
Menina ligou 9 vezes para a PM: "se ele for solto, mata eu e minha mãe"
Criança de 9 anos chamou a polícia para defender a mãe após constantes episódios de agressão dentro de casa
| DAYENE PAZ E RAíSSA ROJAS / CAMPO GRANDE NEWS
Uma menina de apenas 9 anos precisou insistir nove vezes ao telefone para conseguir ajuda. Do outro lado da linha, o pedido era simples e desesperado: ela não aguentava mais as agressões dentro de casa. A última ligação ao 190 foi atendida e resultou na prisão em flagrante do pai, um borracheiro de 28 anos, após mais um episódio de violência doméstica, na noite de sexta-feira (2), no Jardim Los Angeles, em Campo Grande.
RESUMO
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Uma menina de 9 anos precisou ligar nove vezes para o número 190 até conseguir ajuda policial durante mais um episódio de violência doméstica em Campo Grande. O pai, um borracheiro de 28 anos, foi preso em flagrante após agredir esposa e filha na noite de sexta-feira (2), no Jardim Los Angeles. A família vive em situação de vulnerabilidade e, segundo relatos, as agressões se intensificaram após 2020. A filha mais velha era o principal alvo das violências, tendo sofrido tentativas de sufocamento e agressões físicas desde os três anos de idade. A mãe, de 25 anos, teme pela vida caso o agressor seja solto.
A reportagem esteve na casa da família na manhã deste domingo (4). O cenário traduz a vulnerabilidade: estrada de chão, uma casa muito simples, de reboco cru, com o muro quase tombando. “Se ele (autor das agressões) pular, não aguenta', comentou a própria criança, apontando para a estrutura frágil. Dentro, poucos cômodos e tudo revirado, ainda com objetos espalhados desde a noite das agressões.
Enquanto conversava com a equipe, a mãe - extremamente magra, abatida e visivelmente em choque - se abraçava o tempo todo e olhava para os lados fazendo a mesma pergunta: “Ele foi solto? Se ele for solto, vai matar eu e ela'.
Ao Campo Grande News, a mulher contou que o casal se conheceu ainda jovem, na igreja. Ela tinha 15 anos, ele 18. A mãe dela, desde o início, alertava que ele não parecia um bom parceiro e o aviso nunca saiu da memória. O comportamento agressivo começou a se intensificar após a morte da sogra, em 2020, vítima de infarto. Foi a partir dali que as violências se tornaram frequentes.
Segundo o relato, o foco sempre foi a filha mais velha. Ele rasgava as roupas da menina, a impedia de brincar, xingava e batia. Aos 3 anos, quebrou um celular na cabeça da criança e aos 6, empurrou-a contra uma porta; o olho da menina atingiu a maçaneta. Em outra ocasião, tampou sua boca e nariz, impedindo que respirasse.
Na última semana, o pai voltou a sufocar a criança, que já chegou a ter crises de desmaio por causa das agressões. Foi durante um desses episódios que a mãe se revoltou.
Durante a entrevista, a própria criança contou, com firmeza impressionante para a idade, que aprendeu na escola, aos seis anos, como chamar a polícia e foi o que fez na sexta-feira passada. “Falei que meu pai e minha mãe estavam brigando', disse. O irmão mais novo, de 6 anos, nunca foi agredido. “O foco dele era nela (menina de 9 anos)', resumiu a mãe.
Na noite em que o pai foi preso, a menina ligou nove vezes para o 190. “Na última, eles atenderam. Eu nem sei como vai ser se ele sair. É a primeira vez que vai preso. Se eu tivesse denunciado antes, talvez fosse diferente', disse a mulher.
De acordo com o boletim de ocorrência, a Polícia Militar fazia rondas pela região quando foi acionada para atender o caso. No local, encontrou a mulher com os dois filhos e o agressor ainda dentro da casa. A menina confirmou aos policiais que as agressões eram constantes e que o pai já tentou matar a mãe com um canivete, sendo impedido por vizinhos.
O homem foi preso em flagrante e o caso registrado na Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher). Mesmo assim, o medo permanece. A mulher ainda não registrou boletim de ocorrência formalmente por conta própria e se diz insegura para ir à delegacia sozinha com as duas crianças. Na sexta-feira, acabou indo embora da Deam porque estava transtornada e já era muito tarde. Ela repete que se sente sem rumo, em extrema vulnerabilidade, e acredita que ele vai voltar.
Se você vive ou testemunha qualquer forma de violência doméstica, denuncie. O Ligue 180 funciona 24 horas, de forma gratuita e sigilosa, para orientação e acolhimento. Em situações de risco imediato, ligue 190. Um telefonema pode salvar vidas.
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